Nelson Capucho
Nelson Capucho
O escritor, os passarinhos e a serra elétrica
Telefono ao amigo Domingos Pellegrini.
Precisava trocar umas idéias com o brilhante escritor (troca de idéias é sempre um negócio arriscado...neste caso, por exemplo, o Pellegrini deve ter ficado no prejuízo). Tenho de falar um pouco mais alto que o habitual. Uma maldita serra elétrica na construção ao lado do prédio onde moro, não apenas me atrapalha quando estou ao telefone, mas me arranca da cama mais cedo e impede que, em casa, eu me dedique a qualquer atividade que exija o mínimo de concentração intelectual.
Fico com inveja do Dinho (como os amigos chamam o Pellegrini). Tempo atrás ele também morava em um apartamento no centro de Londrina. Ficou tão irritado com a poluição sonora que suas lutas quixotescas contra os barulhentos em geral estavam se tornando folclóricas. Agora parece muito feliz, morando na chácara.
Nos breves intervalos do diálogo telefônico, tenho a impressão de ouvir até alguns passarinhos.
- Daqui a pouco vou botar o macacão e me dedicar à jardinagem - diz o escritor. A frase me soa como exibicionismo. Não por culpa dele, naturalmente. Mas, pô, se tem uma coisa que a infelicidade provoca na gente é esta sensação de que as pessoas felizes estão se exibindo. O Dinho lá, tranquilão, cuidando das plantinhas ao som dos pássaros, naquele espaço em que a área urbana e a zona rural se flertam com delicadeza. E eu aqui, irritado com essa antiorquestra de operários, a produzir uma sinfonia dos diabos para construir mais um edifício. No final do dia, a cabeça daqueles trabalhadores deve ficar zunindo. Só por isso já mereciam ganhar mais do que ganham.
É verdade que o Dinho sempre foi um sujeito talentoso e produtivo. Mas desde que se mudou para a chácara, está a mil: lançou três livros e concluiu aquele que talvez seja o seu projeto literário mais ousado até agora: o romance Terra Vermelha, que tem como mote a colonização do Norte do Paraná. Iniciado há três anos, o livro de 600 páginas será lançado em setembro pela Editora Moderna.
Conversamos a respeito do barulho. Pellegrini comenta que o Luiz Carlos Lorencetti (fomos colegas, os três, no legendário jornal Panorama) teve uma otite, ou algo assim, por causa dos ruídos urbanos.
Está certo: vida na cidade é isso aí, quem quiser sossego que se mude para uma ilha deserta. Está certo uma pinóia! As cidades não precisam ser um inferno. O problema é que os lobbies de alguns setores da indústria do progresso não deixam que se aprovem leis coibindo a barulheira insuportável.
E vamos levando a vida.
Cada dia mais surdos, cada dia mais loucos, vamos levando.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
- Amanhã, a partir das 21 horas, na Cachaçaria Água Doce em Cornélio Procópio, a atração é o músico londrinense Marcelo Camargo. O fino da MPB e do pop&rock nacional.
- Hoje e amanhã, a partir das 22 horas, tem show de Denilson (voz e violão) e André Siqueira(violão e guitarra) no Bar Água Viva, em Londrina. Couvert de R$ 1,80.
- A escritora Rosana Bond, ex-editora de política desta Folha lançou na Bienal do Livro A Magia da Árvore Luminosa (Editora Ática). Rosana, grande texto, agora mora em Florianópolis.
- Meu ex-professor e velho amigo Wilson da Costa Bueno (não confundir com o cronista Wilson Bueno, que escreve na Folha2 aos domingos) divulga o 13º Congresso Brasileiro de Comunicação Empresarial, que será realizado em São Paulo, de 28 a 29 de maio. Para quem atua na área de comunicação em empresas, associações, ONGs, assessorias, agências etc, certamente será um encontro proveitoso. No dia 27, haverá o Workshop de Comunicação Científica e Tecnológica. Outras informações na Comtexto, pelos telefones: (011) 3865-6327, (011) 256-9929. E-mail: comtextoªdialdata.com.br.Ofício
Faço poemas
como um menino
a engarrafar fumaça.
O bom verso espero:
eis que vem e logo passa.
Outro chega, esperto,
em vento se disfarça.
E no perverso ofício que me cabe
conseguirei um dia, quem sabe,
guardar minha infância na garrafa.





