Nelson Capucho
Quem apareceu com a pequena esfera na repartição foi o Jadir. Era do tamanho de uma bola de tênis, de material macio e transparente, cheia de pontos luminosos no seu interior, o que conferia ao objeto um caráter ao mesmo tempo lúdico e místico.
- Comprei de um camelô - ele explicou para a dona Zuleica, a secretária, sempre curiosa.
- Pra que serve?
- Na verdade não sei. Achei bonitinha, comprei.
Na mesa ao lado, o Abreu resmungou:
- Humpf...- no seu dialeto, isto poderia significar muitas coisas. Neste caso, queria dizer que bobagem. Mas o Abreu devia ser um daqueles sujeitos que quando acordam se sentindo feliz, logo pensam: algo deve estar errado. Então o Jadir não deu muita importância e sentou-se para trabalhar. De vez em quando não resistia e apalpava a bolinha sobre a mesa. Percebeu que aquilo era prazeroso e relaxante. Ficava rindo sozinho. Aí a dona Zuleica reapareceu:
- Posso dar uma pegadinha?
- Na bolinha?
- É, só um pouco. Já devolvo.
- Claro, claro.
O Pacheco foi até a mesa da secretária levar um memorando e percebeu que ela acariciava a esferazinha translúcida com uma serenidade oriental. E olha que dona Zuleica era do tipo eficiente-agitadinha.
- Que é isso?
- Bolinha.
- Hãã...e é gostoso?
- Só. Maior barato.
A novidade se espalhou. Nas rodinhas de fofocas do cafezinho, no refeitório, nos corredores só se falava da bolinha do Jadir.
- Dá uma sensação meio estranha assim por dentro da gente.
- Você pegou?
- Só um pouquinho, né!
- Soube do boy?
- O que aconteceu, pelo amor de Deus?
- Foi flagrado no banheiro com a bolinha. Estava desaparecido há mais de uma hora...
- Menina, que coisa!
No dia seguinte, mais três funcionários tinham comprado bolinhas. Formavam-se filas nas mesas. Todo mundo queria experimentar. O Abreu naturalmente foi o último. E gostou. Não disse nada, é verdade, mas sorriu levemente. Em 17 anos de serviço era a primeira vez que isso acontecia. O efeito da esfera logo se disseminou, desestressando o ambiente. As pessoas começaram a se vestir de modo diferente. Nada de paletós ou taillers; mais jeans, camisetas.
- Prefiro o básico, entende?
- Só.
Brincavam, contavam piadas. Rixas foram esquecidas. Casais de namorados da repartição, que antes evitavam se olhar, por constrangimento ou medo de perder o emprego, agora trocavam beijinhos. O Helinho, rapaz introspectivo, esquisitão mesmo, certo dia subiu em uma cadeira e fez um discurso sobre o filosófico e o metafísico, Foi engraçado. Até o Abreu aplaudiu.
Quem não estava gostando muita da festa era seo Almeida, o gerente (que, aliás, nunca tocou na esfera). Primeiro fez uma advertência por escrito a todos os funcionários. Não adiantou. Resolveu procurar o diretor. Não gostava de incomodar o homem, mas o caso estava ficando grave, pô!
Explicou a situação, o diretor ouviu com o aparente desinteresse de sempre. Aí ordenou a seo Almeida que fosse buscar uma das tais bolinhas. Queria ver se era esta realmente a causa da insubordinação. Experimentou:
á- Humm...hummm
Não teve dúvidas: representava um perigo para a empresa.
- Prazer e serviço não se misturam.
Baixaram uma norma proibindo o manuseio e mesmo o porte do nocivo objeto no local de trabalho. Foi também contratado um psicólogo para avaliar periodicamente os empregados: todo aquele que apresentasse desvio de comportamento seria afastado de suas funções. Como exemplo, demitiram o Jadir. A maioria achou que estava certo. Ele não podia ter feito aquilo! Foi uma irresponsabilidade.
Aos poucos a repartição voltou ao normal.
Dizem que o Jadir montou seu próprio negócio e está indo muito bem. Vende bolinhas.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.





