Num país distante, bem distante do nosso, estavam reunidos o imperador e alguns ministros de áreas afins. Afins de quê, exatamente, eu não sei. Quer dizer, sei, mas não queria perder a piada. Ocupavam uma sala espaçosa, adequadamente refrigerada, o piso coberto por tapetes persas. Em pauta, a questão do desemprego. Desemprego dos mortais, não deles, é claro.
Imperador:
- E então, alguém pensou em alguma coisa?
- Bem...- ameaçou o ministro A.
- Rã-rã...- pigarreou o ministro C.
- É para registrar isto? - indagou o ingênuo escriba, sentado diante de um computador.
O imperador olhou interrogativamente para os homens engravatados que rodeavam a mesa de puro mogno:
- E então?
- Bem...- o ministro A tomou coragem e prosseguiu -...eu não creio que os números sejam assim tão alarmantes. Tenho aqui um levantamento...
- Dexovê! - o ministro C esticou o pescoção.
- Ihhh...- o ministro B fez uma careta.
- O que houve? - quis saber o imperador.
- Esse levantamento...
- Quiquitem? - perguntou o ministro C.
- É aquele, lembra-se? - o ministro B dirigia-se ao imperador.
- Hem? Ah...aquele que encomendei...quer dizer...
- Exatamente.
- Não dá, não dá mais - o imperador ergueu-se, tomou um gole de água Perrier e completou: minha gente, eu sei qual é a situação real. Quero soluções, entenderam?
- É para registrar? - sussurrou o escriba.
- Pombas! Claro que não!
O imperador coçou a cabeça, sendo imediatamente imitado pelo ministro C. Com um lenço de seda, o ministro A enxugou gotículas de suor da testa.
Só o ministro B parecia relaxado. E foi ele quem falou:
- Tenho uma sugestão. Sei que parece meio maluca, mas a esta altura do campeonato...
- Fala de uma vez, homem!
- Existe um sujeito aqui pertinho, em Taguatinga (mera coincidência: naquele país também havia um lugar com esse nome). Ele se chama Manelão, é meio professor Pardal, meio curandeiro, essas coisas. Pois outro dia o Manelão procurou o meu assessor e jurou ter inventado uma poção que torna as pessoas invisíveis.
- Peraí, eu tô preocupado, mas ainda num tô cum medo de sair na rua - atalhou o ministro C.
- Não é para nós, sua excelentíssima anta!
- Ah, bão!
- Epa, isto pode ser interessante! - entusiasmou-se o imperador, acenando com a cabeça, sorriso torto nos lábios.
O ministro A, intrigado:
- E qual seria exatamente o plano?
- Se o produto realmente funciona, vamos fazer uma campanha de vacinação para os desempregados, algo assim...
- Podemos aproveitar a fila do Sine.
- Damos um kit junto com o seguro-desemprego.
- Misturamos na cachaça!
As ‘‘boas idéias’’ começaram a proliferar, obrigando o escriba a digitar alucinadamente. O imperador deu um abraço no ministro B. O ministro C abraçou o ministro B.
- Demoliremos as estatísticas!
- Calaremos a oposição!
- Rá, rá, rá...
- Cadê esse Manelão, pelo amor de Deus? Chama o Jonas, manda buscar esse homem imediatamente!
Foi aí que o ministro A pediu um aparte, com a delicadeza que a situação exigia:
- E se essa gente invisível começar a criar problemas?
- Problemas? Que problemas?
- Saques, roubos, o senhor sabe...
O imperador e o ministro C olharam simultaneamente para o ministro B. Ele sentou-se, e, pensativo, curvou-se sobre a mesa. Teve de admitir:
- Não havia pensado nesta hipótese.
Desanimado, o imperador virou-se para o escriba:
- Deleta tudo, deleta!TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.

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