O Higino, que já havia trabalhado em circo, teve a idéia. Reuniu uns amigos, católicos como ele, e o grupo foi procurar o padre da cidadezinha.
- A gente queria fazer um teatrinho na Semana Santa.
- Vocês?
- A ‘‘Paixão de Cristo’’, uma coisa simples...
- Bonita iniciativa. Quanto vai custar isso? Nossa paróquia é modesta, vocês sabem...
Disseram que o padre não precisava se preocupar, fariam um ‘‘livro de ouro’’, conseguiriam ajuda no comércio. Improvisariam o palco no salão paroquial. Sem problemas.
O padre concordou e a turma correu até o bar do seo Domingos para comemorar e acertar detalhes do espetáculo. Surgiu então a questão:
- Quem vai ser o Cristo?
- O Zé Lambreta!
- Putz! É claro: tem que ser o Zé, ele é a cara do Homem.
Zé Lambreta era uma espécie de hippie sertanejo, cabelos compridos, olhos fundos. A princípio não gostou da proposta:
- Sei não, essa história está meio batida. Todo mundo sabe que o herói morre no fim do filme.
- Não é um filme, Zé, é teatro.
- Sei não, nunca fiz teatro.
- Você está se recusando a ser Jesus Cristo por um dia, pensa bem...
Convenceram. Para reunir os apóstolos não foi difícil: convocaram o time amador de futebol. Penoso, o goleiro, ficou com o papel do Judas.
Na sexta-feira, o salão ficou lotado. Tudo correu bem. Com exceção do seo Braz, o açougueiro, que representava um soldado romano e exagerou nas chicotadas no coitado do Zé Lambreta. O açougueiro cismou que o rapaz dava em cima da filha dele, que fazia a Madalena na peça. Outra pequena gafe ficou por conta da dona Onória, a costureira, no papel de uma boa samaritana. Ela se emocionou diante de Jesus e esqueceu completamente a fala.
De qualquer forma, o público adorou.
No ano seguinte, o sucesso foi ainda maior. Veio até gente de outros lugarejos. O padre decidiu que a próxima encenação seria na praça, em frente à igreja. Cinco anos depois, com apoio da Prefeitura - a mulher do prefeito queria ser a Virgem Maria, mas acabou aceitando uma ponta na cena dos vendilhões do templo - a via crucis usou praticamente a cidade toda.
A ‘‘Paixão’’ virou atração turística. Ficou grande demais e as autoridades municipais decidiram trazer um diretor de teatro da Capital. Contrataram também três ou quatro atores ‘‘com experiência’’. O padre foi transferido. Zé Lambreta passou a apóstolo, foi rebaixado a Pilatos e acabou como mero garçon da Santa Ceia. Depois vieram os técnicos em iluminação e um cenógrafo. O Prefeito decidiu construir um Paixonódromo.
- No ano que vem teremos raio laser e telões! - festejou um vereador situacionista.
- E um ator da Globo no papel principal! - entusiasmou-se um vereador da oposição.
Agora, completamente afastado da produção, Higino anda pelos bares contando como tudo começou. Os turistas não lhe dão muita atenção. Querem mesmo saber é onde o Cristo vai ficar hospedado para conseguir autógrafo. TOKS.TOKS.TOKS.TOKS

mockup