O poeta quer apenas o indizível, o intangível da prosa.
‘‘Tudo aquilo que não grita para ser poesia, não é poesia’’.
O poeta arranca o verso do verso, do lado B, do último cômodo, do último incômodo, do fundo da alma, do fundo da lama. Extrai o verso-cachaça do bagaço, o verso caranguejo do mangue. Escreve com sol e aço, suor e sangue.
O que sente e ressente, o som que reverbera, o verbo que adverba, o som vesgo, o som visgo, as vísceras do bicho de inexplicável nicho. As re-palavras, as im-palavras, as des-palavras, as para-palavras: lavra na brasa. ‘‘A brasa através’’. Palavras nuas, naus que se aliteram, metaforizam, navegam, naufragam, nuaflanam, nua-luarizam-se. Estrelas debulhadas em cetim de página, ex-letras costuradas em estandarte de dor e sorte, caleidoscópio de amor e morte. Luta vã. Lida-vida. ‘‘Será arte?’’
A febre terçã, o papel que envolve a maçã, o mergulho da rã.
O poeta sofre a rima da palavra imã.
O terror do poeta talvez seja desperdiçar palavras. A maioria dos poetas é a antítese da maioria dos políticos. Poéticos x pouco éticos. O poeta escreve com caco de telha, farpa de arame. E há aqueles que escrevem com o próprio corpo. Vidro e corte.
Lança garrafas de náufrago. Espera, esperança. ‘‘Cercado de bois, depois se alastra’’. Dentes roxos de terra, colhe a cinza das horas, recolhe miudezas, faz ‘‘livro sobre nada’’. Nacos de nada. O copo vazio da poesia, a sala vazia da poesia, a vida vadia da poesia. O macro e o profano. O sacro e o profundo. O ‘‘sentimento do mundo’’. Nacos de tudo. A veia, o líquido, a farmácia: o poeta liquidifica-dor. A poesia no asfalto, no rio seco, na vitrine da tabacaria. A ‘‘música urbana’’.
O poeta não pediu para ser poeta. Não quer ser profeta, não quer ser esteta, não quer ser ‘‘antena da raça’’, não quer ser bronze na praça. O poeta só é poeta porque é; como o colibri é um colibri e o flamboyant, um flamboyant.
O poeta não quer ser Jesus, ‘‘morrer dependurado numa cruz’’.
Insone, nomes vários têm sua sede, sua fome. Bebe o mar, mastiga astros, come estradas, engole espadas, cospe fogo e plumas. Solta os cachorros. A porta da inércia desconforta. Mistura-se às ervas, rasteja na relva, caramujo ensimesmado de futuro. Brinca de pássaro, empina telas, põe ‘‘calças nas nuvens’’, dedilha um ataúde, planta flores no alaúde. Às vezes compõe antiga canção: girassol na lapela, bengala de luz, chapéu de estrelas, sapatos azuis. Sonha no sonho. E ‘‘inventa o mar’’, inventa o cais, inventa o verbo ingenuar.
É fingidor sincero, o poeta, todos sabem. Pastor de fumaça, fazendeiro do ar, jardineiro de flores inúteis. É todo coração. Disparado.
Quem entende? Ninguém. E isto também não tem a menor importância.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS

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