O Cerqueira andava meio macambúzio e os amigos desconheciam o motivo. Sabiam que o fim do casamento havia sido complicado, que ficara muito rancor após a divisão dos bens e que a ex-mulher começara a praticar tiro ao alvo, mas tudo isto era bobagem. Um ano depois, tentavam acreditar, os traumas da separação já deveriam estar superados.
Por sugestão do Marcos Vinicius decidiram promover uma festa tropical. Muita bebida, frutas, mulherada, olodum, o diabo!
- É isso aí! Só os bregas são felizes! - Gritou o Castro, dando um tapa no ombro do Cerqueira.
- Legal... - disse o outro, sem o menor entusiasmo.
Participou da farra, é verdade, mas no dia seguinte estava com a mesma cara de enterro. Os amigos resolveram ter uma conversa séria com ele.
- Vai Cerqueira, diz aí o que está acontecendo...- tentou o Albuquerque.
- Nada importante.
- Deixa de frescura, pô, a gente é amigo ou não é?
Ele balançou a cabeça.
- Não há nada que vocês possam fazer.
- Dinheiro? - Perguntou o Marcus Vinicius.
- Não, não.
Ninguém tinha problema com dinheiro naquela roda. Os bisavós, os avós e os pais haviam ganho o suficiente para que eles pudessem viver assim, digamos, na boa-vida.
Insistiram tanto, que o Cerqueira acabou se abrindo. Pelo que os amigos puderam compreender, o drama todo era por causa de uma vontade de comer trutas.
- Só isso?
- Precisava ter ficado assim?
- A gente resolve fácil! - Disse o Marcos Vinicius - Vamos fazer uma festa com truta de todo jeito: consomés, sashimis, truta assada, frita, com amêndoas, com alcaparras, com molho de...
- Não precisa tanto. Quero apenas aquelas deliciosas ‘‘trutas recheadas com espinafre’’.
- Quem tem a receita? - Indagou, decidido, o Albuquerque.
- Pois é. Só ela tem.
Ela, naturalmente, era a ex-mulher, que guardava o segredo a sete chaves. E com razão: na alta sociedade, o que costumam roubar de receitas é uma coisa absurda.
Roubo. Exatamente o que a turma planejou. Um dos calhordas vestiu um macacão azul, foi até o antigo endereço do Cerqueira:
- Serviço de telefonia.
Entrou na residência. Seguindo um mapa desenhado pelo amigo, localizou o cofre atrás de uma gravura horrorosa e, enfim, o álbum de receitas. ‘‘Trutas recheadas com espinafre. Cinco trutas limpas, desossadas (sic) e divididas ao meio...’’
Decidiram que o prato do Cerqueira tinha que ser preparado naquela noite mesmo.
- E o vinho?
- O Latour Blanche! - Apressou-se o Marcos Vinicius.
- O Blanche, claro - complementou o Castro, que não entendia piciricas de vinhos, mas fazia a maior pose.
Jantar perfeito. O Cerqueira comeu as trutas com apetite de caminhoneiro. Os amigos, que só se preocuparam em servir, emocionaram-se.
- Licorzinho?
- Sobremesa?
Aí o Cerqueira começou a ficar sorumbático outra vez. Ninguém entendeu nada.
- Que foi agora?
- Ela fazia uma musse de maracujá imbatível.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.

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