Arquivo FolhaO Reginaldo tinha uma mania: colecionava frases.
Aforismos, pensamentos, adágios, essas coisas. Muitos, sabia de cor. Máximas, provérbios, sentenças, citações, anotava tudo num caderno de capa dura. Tinha, aliás, cinco cadernos cheios. Na sala de espera do consultório do dentista, quando encontrava alguma frase interessante numa daquelas revistas antigas, dava um jeito de copiá-la nem que fosse no talão de cheques. Mania, fazer o quê?
Até aí, tudo bem. O problema era conversar com o Reginaldo. Sempre sério, praticamente só falava através de citações.
Estavam lá, ele e os amigos ao redor da mesa do bar e de repente o Reginaldo atalhava um diálogo, empostando a voz:
- Nada é mais comum neste mundo que se tornar insuportável por suas boas qualidades. Rondelet - acrescentava o nome do autor, outro hábito.
- Hem?
- O homem que deseja viver em paz neste mundo tem que ser surdo, cego e mudo. É um provérbio turco.
Os amigos entreolhavam-se, concordavam (‘‘Certo, certo...’’) e continuavam falando dos problemas cotidianos, do trabalho no banco ou no escritório, do jogo de futebol. Mas quando o assunto escorregava - e, cá entre nós, inevitavelmente escorrega - para as relações com as mulheres, que saíssem de baixo: lá vinha o Reginaldo despejando algumas das suas pérolas. Contra e a favor, uma miscelânea, mas todas as máximas carregadas de um peso de verdades definitivas.
- Se a mulher odeia a serpente, é certamente por rivalidade de ofício. Victor Hugo.
Iam retomar o fio da conversa, mas ele ergueu-se da cadeira e quase fez um discurso:
- Há três coisas que eu adoro extraordinariamente sem nunca ter podido compreender: a pintura, a música e as mulheres.
- Você?
- Fontenelle.
- Aaaah...
- Recordo-me de ter ouvido falar de duas mulheres que se gostavam sinceramente e viviam em paz, sem que uma jamais dissesse mal da outra: uma era surda; a outra, cega. Essa é do Paul Auguez.
Ninguém tinha a menor idéia de quem era o ilustre autor (um poeta francês). Nem o Reginaldo. Mas, de certa forma, não deixava de impressionar.
Outra cena: o Reginaldo estava na fila do banco, como qualquer mortal de saldo escasso, quando ouviu uma daquelas discussões superficiais sobre política. Não resistiu:
- Todo o mal do Brasil é que a política é uma profissão, mas os políticos não são profissionais.
Os dois sujeitos envolvidos na discussão acenaram com a cabeça, a concordar, meio assim, assim.
- Essa é do padre Júlio Maria - completou o Reginaldo.
Silêncio na fila.
Com as garotas, de vez em quando a coleção do Reginaldo funcionava. Ele ficava a ouvir a parceira, como se estivesse interessadíssimo. Na verdade, apenas aguardava a oportunidade de soltar um fragmento de poema:
- Esta vida é um punhal com dois gumes fatais. Não amar é sofrer; amar, sofrer mais.
- Bonito.
- Menotti del Picchia.
Às vezes, arriscava um pensamento, digamos, profundo:
- O cristianismo fez muito pelo amor, transformando-o em pecado. Anatole France.
Pronto. Já rolava um papo sobre pecado. E o Reginaldo tinha também várias frases a respeito. Por exemplo:
- O pecado é irmão gêmeo da virtude. Remy de Gourmont.
O diálogo derivava para a hipocrisia da sociedade, mas aí ele se empolgava e acabava se esquecendo de que o verdadeiro objetivo desse exibicionismo era a conquista.
Dias atrás, os amigos prepararam uma boa para o Reginaldo. Numa reunião, quando ele assumiu aquela fisionomia que a primeira citação da noite exigia, alguém atacou:
- O ar grave é uma artimanha do corpo para ocultar os defeitos do espírito. La Rochefoucauld.
Surpreso, tentou se lembrar rapidamente de alguma máxima para aproveitar o mote. Não teve tempo. Outro emendou:
- O prêmio da importância sem merecimento é um respeito sem estima. Chamfort.
E um terceiro, que decorou a citação muito mal, balbuciou:
- O útil fica belo depois que não é mais útil. Um tal de Spencer, eu acho.
Sem jeito, Reginaldo não disse mais um palavra. No dia seguinte, continuou mudo. Em casos extremos, respondia por monossílabos. Uma semana calado. Parecia deprimido, doente. Os amigos começaram a se preocupar. Decidiram ir até o apartamento dele, dar uma força. Tanto insistiram (‘‘Que é isso, deixa de bobagem’’, ‘‘coisa mais infantil’’) que acabaram arrancando uma frase:
- O silêncio é, depois da palavra, o segundo poder do mundo. Lacordaire.
Foram embora. O Reginaldo que se danasse.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.

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