Quando conheceu a Fabiana, o Reginaldo tinha em mente o mesmo que todo homem tem quando conhece uma mulher interessante. Todo homem solteiro e meio canalha, que fique bem entendido. Uma conversinha mole aqui, um chopinho ali, uma caronazinha qualquer dia e, claro, cama. Um romance incendiário e breve. Coisa de dias, uma semana no máximo. Porque, acontecesse o que acontecesse, o Reginaldo manteria a solteirice. Nisso, era radical. Além do mais, havia o pacto dos Piratas da Madrugada.
A idéia dos Piratas nasceu nos tempos da faculdade. Garotões, moravam os três numa república. Madrugada, depois de meio garrafão de legítimo Sangue de Boi e um bom baseado, saíram caminhando no meio da neblina. Aí o Bimba teve o estalo:
- Vamos formar uma gangue.
- A gente já é uma gangue - emendou o Zé Galinha.
- Não é não. A gente é um trio, uma tchurma, uma patota, qualquer coisa. Mas gangue não. Gangue tem que ser unida de verdade.
O Reginaldo estranhou aquele papo, mas tudo bem.
- Primeiro que gangue precisa ter um nome...e um pacto - esclareceu o Bimba, assumindo postura de especialista no assunto. Os outros acharam melhor não contrariar.
- Um nome?...Huumm...que tal ‘‘Os Nóis’’? - sugeriu o Zé Galinha.
- ‘‘Os Eles’’ é melhor - comentou por comentar o Reginaldo.
- Não sei...parece banda de rock.
- E ‘‘Piratas do Inferno’’? - voltou a sugerir o Zé.
- ‘‘Piratas da Madrugada’’! É isso.
Se o Bimba achava que o nome era esse, tudo certo. Quem entendia de gangue era ele. Passariam logo à segunda parte, que certamente seria mais complicada.
- Vamos ao pacto - falou o Bimba, com um jeitão que ele imaginava ser uma imitação do Humphrey Bogart.
- Esse pacto tem prazo de vencimento? - quis saber o Reginaldo.
- Nada disso. Pacto de gangue é pra sempre.
- Pô, cara, pra sempre é muito tempo. Tenho só 22 anos. Se eu já fosse velho como o meu avô, tudo bem.
O Zé Galinha tentou dar uma força:
- Não pode ser só até o Carnaval? Você sabe, no último Carnaval eu esqueci até onde morava, imagina um pacto.
- De um pacto de gangue ninguém se esquece jamais!
O Bimba parecia ter incorporado o Al Capone. Resolveram levar adiante a brincadeira.
- Tudo bem. Proponho que a partir de hoje a gente só beba vinho importado - o Reginaldo tentou ser esperto.
- Zero.
- E se a gente decidisse que os Piratas da Madrugada nunca tomarão banho no inverno?
- Pô, Zé, isso é legislar em causa própria. Você é o único na república que não se simpatiza com o chuveiro.
- Já sei: casar!
- Eu não quero me casar com vocês!
- Cala a boca, sua besta! Ninguém aqui quer saber de casamento, certo?
Os outros dois concordaram com o Bimba imediatamente:
- Deus me livre!
O Bimba reforçou:
- Nunca um Pirata da Madrugada poderá se casar, certo?
- Beleza.
- Tá falado.
O Reginaldo ainda perguntou se não tinha aquela história de cortar o dedo, assinar um papel com sangue, essas coisas. O Bimba disse que não era necessário, mas que o rompimento do pacto seria fatal. E explicou:
- Se alguém aqui, algum dia trair a gangue e cometer um casamento, vai ter punição.
- Morte?
- Não. Divisão da fêmea.
- Hem?
- Namorada vale? - o Zé Galinha perguntou só por maldade. O Bimba era o único que tinha namorada naquele momento.
- Nosso pacto se refere apenas a casamento formal. O Pirata que um dia entrar nessa fria, já sabe: vai ter que dividir a mulher.
Agora, já formados, todo mundo trabalhando, se encontrando apenas de vez em quando, era até normal que se esquecessem daquela bobagem. Mas o Reginaldo gostava de se lembrar do pacto para não se envolver seriamente com nenhuma gata. Uma espécie de defesa, vai saber. Só que a Fabiana também tinha lá seus truques. E o coitado acabou se apaixonando. Semanas, meses. Passou a frequentar a casa da moça. Virou um cãozinho amestrado. Ela dizia vem, ele ia. De vez em quando, porém, lembrava-se dos Piratas da Madrugada, do pacto. Claro, aquilo era ridículo. Coisas de estudante republicano. Não fazia mais nenhum sentido. Mas o Bimba e o Zé Galinha nunca se casaram. Ficaria chato se acontecesse logo com ele.
Até que um dia, surpresa: a Fabiana chegou para o Reginaldo e disse:
- Olha, nosso namoro estava ficando sério demais, a gente ia acabar se casando e eu não estou afim. Quero dar um tempo, fazer pós-graduação na França, mudar minha vida, entende?
- É o fim?
- Vai ser melhor para nós dois, tenho certeza.
A Fabiana desapareceu na tarde cinzenta. Ele ficou meio atordoado. Entrou num botequim e pediu vinho vagabundo. Relâmpagos, trovões.Começou a chover forte. Reginaldo bebeu até ficar roxo por dentro. Aí saiu na chuva, dançando e cantando feito um Gene Kelly desengonçado. Amanhã telefonaria para os Piratas e marcaria uma reunião.

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