Nelson Capucho
Na sala de espera da maternidade, o homem anda pra lá e pra cá. Acende um cigarro.
Uma enfermeira passa por ele, volta e pede, num tom gentil que não combina com o olhar de desaprovação:
- O senhor poderia ir fumar no corredor ?
- Oh, desculpe-me. Nem percebi que estava fumando.
Quando a enfermeira vai se afastar, ele a segura pelo braço:
- Senhorita, por favor, como estão as coisas lá dentro?
- Tudo corre muito bem, fique tranquilo.
- Mas está demorando tanto.
- É o seu primeiro filho?
- Não, não...tenho um casal. Mas desta vez me parece diferente, uma espécie de intuição, não sei bem o que é.
- Fique calmo.
- Claro, claro. Oh, a senhorita quer um cigarro?
A enfermeira balança a cabeça:
- Obrigada, não fumo. E acho que o senhor também deveria parar.
- Vou pensar nisto. Quem sabe amanhã. Agora não dá, compreende?
- Fumando desse jeito, nosso problema não vai ser com o parto, mas com o seu coração.
A moça desaparece atrás de uma porta de vidro fosco. O homem continua ali, nervoso.
Até que a enfermeira reaparece com a notícia: nasceu.
á- Parto normal. É um Pentium 233 MHz.
- Hem? Como assim?
- O que o sr. estava esperando?
Ficou meio envergonhado.
- Não, nada, tudo bem. O importante é que venha com saúde não é mesmo?
- - -
A esposa achou o computador lindo e se animou a fazer um curso de informática. As crianças estranharam um pouco no início. Esperavam um bebê igual àqueles que viam nas novelas da TV. Mas, no fundo, sabiam que brincar com esse irmãozinho seria muito mais divertido.
Vieram os avós, amáveis como sempre. Trouxeram uma elegante capa bege para o recém-nascido.
- Vai ficar uma gracinha.
Um tio, corintiano fanático, apareceu com um mouse-pad com distintivo do timão. Os cunhados, animados, se uniram para comprar uma impressora. Só as cunhadas não conseguiam conter a inveja e comentavam, em voz baixa, na cozinha:
- E aí?
- É bonitinho.
- Hum-hum.
- Eu, quando engravidar, vou fazer tudo direitinho.
- O que você quer, menino ou menina?
- Um Macintosh.Outro Capucho





