Arquivo FolhaEle adorava o Cauby.
Não sabia exatamente o motivo, se é que existe um motivo claro e evidente para alguém preferir determinado intérprete ou apreciar certo tipo música. Há quem goste de bossa nova, do jeito intimista do João Gilberto dizer ‘‘o barquinho vai, o barquinho vem...o pato, quém-quém’’ só porque combina com uísque. E tem aqueles quarentões que se divertem ouvindo o Renato e Seus Blue Caps e as coisas da jovem guarda. Adoram aquelas versões água-com-açúcar que remetem a um tempo em que não pensavam em sexo: faziam sexo.
Toninho era quarentão, já descobrira os prazeres da homeopatia e, mais recentemente, da boa música. Quer dizer, ‘do Cauby’: a voz, os trejeitos, até o exagero em algumas notas da antiga ‘‘Conceição’’, em vinil meio baleado, que costumava ouvir nas manhãs de domingo.
Adorava o Cauby, e daí? Daí nada. Não fosse a irritação que o seu ídolo provocava na Ciça, a companheira do terceiro casamento. Davam-se bem em quase tudo. Com relação ao Cauby, não tinha acordo:
- Ah, não Antônio Augusto! (Quando estava brava sempre o chamava pelos dois nomes. Em situações normais, era Toninho).
- Hem?
- Se você for ouvir esta droga de novo eu vou cair fora!
- Como assim, cair fora?
- Vou ao shopping olhar vitrines, andar de carro em alguma estrada da zona rural, pescar no Igapó, qualquer coisa.
- Pescar? Você nunca gostou de pescar. Detesta beira de rio, pernilongos, não tem paciência para esperar o peixe morder a isca...
- Então vou à missa.
- Pô, a coisa está ficando grave!
- Já disse que não aguento mais esse Cauby,
- Então eu ouço com o headphone, Ciça. Não incomodo ninguém.
- Não interessa. Eu vou saber que você está ouvindo o Cauby e isso vai me irritar.
- Toma um chazinho de erva cidreira.
- Sabe de uma coisa, Antônio Augusto, eu estou com vontade de jogar um vaso na sua cabeça.
Ele ainda tentou uma piada:
- Menos aquele asteca que a gente trouxe de Cancún, né benzinho!
- Um vaso sanitário, seu idiota!
Ela saiu batendo a porta. Era grave mesmo.
A mulher não voltou para o almoço. Preocupado, ele ligou para a sogra, para uma prima mais chegada. Ninguém sabia da Ciça. Quando ela apareceu, à tarde, ficou aquele clima. Não pediram a pizza de costume, ele foi ler no quarto, ela ficou vendo o ‘‘Fantástico’’ sozinha.
Um mês depois chegaram à conclusão de que o melhor seria a separação. Ela disse que o casamento já não era a mesma coisa, ele concordou e argumentou que precisava se sentir bem em casa, ouvir o som que quisesse. Tudo ok, sem dramas. Cada um para o seu lado.
Agora o Toninho enjoou do Cauby, está ouvindo jazz. De vez em quando pensa em telefonar para a Ciça, mas aguenta firme. Ela, quando se sente só, bota para tocar o último CD que adquiriu: ‘‘Cauby - Grandes Sucessos’’. E xinga o Antônio Augusto baixinho.

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