Nelson Capucho
Tenho quase certeza de que seria uma boa história.
Duas nisseis, 15 e 16 anos, moram com a mãe doente. O pai morreu de desastre oito anos atrás. A vida é dura. A casa, muito simples, destaca-se na ruazinha pelo jardim bem cuidado. Certo dia, uma das meninas sai para cumprir a tarefa matinal - a mesma que executa desde quando a mãe tinha força e autoridade para exigir. Nuvens pesam no céu. A irmã a vê saindo com o regador na mão: Por que vai fazer isto? Logo começará a chover.
Não faço pela mamãe ou pelas plantinhas e suas flores, faço isto por mim mesma, responde a japonesinha. E sai, altiva. Os pingos da chuva começam a molhar os seus cabelos negros e o rosto juvenil.
Claro, trata-se apenas de uma sinopse banal. Talvez eu nunca consiga contar decentemente a história porque não tenho a primeira frase. Poderia ser: Mahoko apanha o regador e vai executar a tarefa de todas as manhãs. Ou talvez: A velha sofre sua doença no quarto abafado. Não sei. É complicado.
Imagino que escritores de talento não enfrentem semelhante problema. Ernest Hemingway, por exemplo, começou um dos mais belos textos de ficção deste século agonizante com uma frase de irretocável simplicidade: O velho se chamava Santiago.
O velho se chamava Santiago, ponto. E a partir daí Hemingway narra a amizade do pescador veterano com um menino e a luta do homem para trazer à praia um grande peixe, depois de longa fase de azar.
Os leitores logo descobrem que não se trata apenas da luta de um homem contra um peixe, mas da luta de todos os homens com o imponderável. A condição humana é a chave, diriam os críticos, que também poderiam descobrir outros signos e pontos tangenciais importantes na narrativa. Diante da resenha impressa em um jornal, é provável que o velho Hemingway - bem antes de a angústia puxar o gatilho do seu fuzil, um dia em Cuba - balançasse a cabeça e resmungasse: É só a história de um velho pescador.
Gosto muito também da intrigante abertura de O Estrangeiro, de Albert Camus:
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: - Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. - Isso não esclarece nada.
O perfil do personagem está ali, inteiro, no primeiro parágrafo.
Não é igualmente ótimo e supreendente o início de A Metamorfose, do Kafka? Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
A primeira frase, muitas vezes, já revela o estilo do autor. Os rios tortuosos que percorrem todos os escritos de Henry James, por exemplo: Quando a mulher do porteiro, que era quem atendia a porta ao soar a campainha, anunciou Um cavalheiro e uma dama, senhor, ocorreu-me de imediato, como costumava acontecer comigo naquele tempo - o desejo gerando o pensamento -, uma imagem dos clientes. (A Coisa Autêntica, do livro A Morte do Leão).
Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. Você leria um livro que começasse assim? Ou diria que isto parece redação de universitário medíocre? Bom, Tolstói foi, de certa forma, um universitário medíocre, mas Ana Karênina é um dos grandes clássicos da literatura universal.
A verdade é que eles, os escritores de talento, sempre têm uma solução. Não são como eu e minhas japonesinhas.
Dashiell Hammet prefere o estilo cinematográfico, como este close na primeira frase de A Chave de Vidro: Os dados cruzaram rolando a mesa verde, bateram na borda juntos e voltaram. Já Saul Bellow inicia a narrativa na primeira pessoa de Henderson, o Rei da Chuva com uma indagação: O que me levou a fazer esta viagem à África?
No entanto, a mais inusitada primeira frase de que já ouvi falar é de autoria de um escritor americano, cujo nome o arquivo da minha memória se encarregou de esconder completamente (a coisa está piorando, eu sei). Ele iniciou uma novela com esta ousadia em linha reta: Mudou-se para uma ilha deserta e se suicidou.
É o fim.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS





