Nelson Capucho
O jornalista está no saguão do aeroporto, tenta localizar uma fonte no meio das pessoas que aguardam para embarcar no próximo vôo. Não conhece o sujeito que deve entrevistar, mas recebeu a incumbência, tem de encontrá-lo de qualquer maneira. Procura pelo serviço de locução, pede para chamarem o figurão pelo sistema de som.
Acende um cigarro. Nisso, vê um rosto levemente familiar no meio da multidão.
O outro olha, esboça um sorriso. Depois se aproxima:
- Você é o...
- Não acredito!
- Cara, há quanto tempo!
Foram grandes amigos na infância, vizinhos em uma cidadezinha do interior. Incrível. Não se viam há quase 20 anos.
- Vai viajar?
- Não, vim trazer meu chefe. Ele vai para os Estados Unidos. Gente fina, sabe como é?
Queria conversar mais, relembrar a capital mundial da areia - como costumava se referir, de maneira pejorativa, ao lugarejo onde viveu momentos de ingênua felicidade.
- Nunca mais voltou pra terrinha?
- Passei por lá umas duas vezes. Só passei...
De repente surge de uma gaveta da memória o ônibus empoeirado a cruzar o noroeste do Paraná, o pinga-pinga, parando em cada localidade da linha. Quando o carro parava na rodoviária - na verdade, um ponto diante de um boteco - da sua cidadezinha, o cobrador gritava, como se quisesse acordar algum passageiro adormecido num dos bancos suados: Quem tem coragem de descer aqui?
- Você não mudou nada!
- Que é isso!
- Só ficou um pouco mais...forte.
- Se colesterol for força, eu sou o Hollyfield, cara.
Vai falando com o amigo, mas não consegue desviar os olhos do movimento no saguão. Tem que encontrar a fonte. Algum sujeito elegantemente vestido, maleta tipo 007 na mão e telefone celular na cintura (Quanto mais a gente entrevista esses tipos de terno e gravata, mais o jornalismo empobrece, mastiga lá com seus botões).
Os alto-falantes repetem o chamado.
O amigo percebe a sua inquietude.
- Está meio preocupado?
- Desculpe-me. Preciso encontrar um cara que eu não tenho a menor idéia de quem seja. Ele vai embarcar daqui a pouco e eu tenho que entrevistá-lo.
- Leio seus artigos de vez em quando no jornal.
- Ah...legal. E você, o que tem feito?
- Sou engenheiro agrônomo, trabalho para uma multinacional.
Uma noite perdida no tempo: os moleques sob um poste de luz amarela. Imaginavam o futuro. Ele seria um grande escritor; o amigo, craque de futebol, e o Lico, irmão do amigo, motorista de caminhão - como o pai deles.
Só o Lico realizou o sonho, o jornalista fica sabendo agora.
- E como é que ele está?
- Morreu em um acidente na estrada cinco anos atrás.
- Puxa, que coisa - comenta, meio sem jeito, arrependido por ter feito a pergunta. Não imaginava que a resposta fosse obrigar o amigo a uma recordação dolorida.
Surge o homem de terno e gravata, maleta, celular. O repórter pede licença e vai ao encontro da fonte. Apresenta-se, liga o gravador. Os dois têm pressa. Já estão chamando para o embarque. Quando termina a entrevista, precisa correr para o jornal. Tem que tirar as informações da fita, escrever a matéria. O horário de fechamento dos jornais é cada vez mais cruel.
- Tchau! - diz de longe, com um aceno, ao avistar o velho amigo. O outro responde ao gesto, faz mímica, como se segurasse um aparelho de telefone e discasse.
- Vou te telefonar.
- Até. Um abraço.
Falam-se de longe, mas não se ouvem.
Entra no carro do jornal com um sentimento estranho. Pensa num verso da Helena Kollody, numa frase do Rubem Braga. Buzinas, fumaça, prédios. Pensa na Fera na Selva, do Henry James, no Pedro Pedreiro do Chico Buarque. Pensa nos dias de menino, o tempo vindo, lento. Pensa no que queriam que tivesse havido e não houve. Pior: no que haveria de acontecer e não aconteceu.
- Pisa fundo cara, estamos atrasados! - diz ao motorista.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
- Músicos do Planet Hemp são presos em Brasília por apologia à maconha. Estranho: logo em Brasília, onde tem gente fazendo apologia a tanta droga o tempo todo!
- O londrinense Maurício Arruda Mendonça está na praça com seu primeiro livro de poesias, Eu Caminhava Assim Tão Distraído (Ed. Sette Letras - Rio de Janeiro). O lançamento em Londrina aconteceria ontem à noite, com um grande agito no Centro Cultural do Lago Igapó. Corra à livraria mais próxima!
- Hoje, às 23 horas, na Chácara Aruanã (atrás do Moinho Dona Benta), em Londrina, show com a banda Iguaranoise. O grupo londrinense está se mudando para o Rio de Janeiro e prepara um CD quentíssimo. Ao sucesso, moçada!
- Será aberta hoje, às 21 horas, na sala José Antonio Teodoro da Secretaria da Cultura de Londrina (Praça 1º de Maio, 110) a 12ª Mostra Afro-Brasileira Palmares. Os artistas plásticos Agenor Evangelista e Jajá Belluco, presidente e secretário geral do Mecab, prometem uma grande festa. No programa, Big Band e show de percussão com Wagner Nogueira. A apresentação vai ficar por conta do companheiro de peladas de futebol suíço e locutor da TV Londrina Júlio Cezar.
- O Coro Madrigal de Londrina apresenta-se amanhã e domingo no Rio de Janeiro. Regência do maestro Othonio Benvenuto, que é gente finíssima.





