Foi um acidente. O carro desgovernou-se, bateu em alguma coisa. Não se lembrava de mais nada. Agora abria os olhos e dava de cara com aquela porta vermelha. Acima da porta, o neon: Inferno.
Não seria besta de tocar na maçaneta. Olhou em volta. Deserto. Andou pra lá e pra cá. Percebeu que a parede era como a parte de um cenário, só a fachada na imensidão vazia.
- Devo estar sonhando.
Decidiu abrir a porta. E levou o maior susto. Uma cidade. Foi recebido com tapete vermelho, banda de música, fogos de artifício, o diabo. O diabo, mesmo, em pessoa. Um sujeito de barbicha esquisita, que o abraçou amistosamente:
- Trouxe alguma bagagem?
- Não, eu...
- Bobinho, não temos taxa alfandegária. De qualquer forma, parabéns! Vamos entrando.
- Aqui é mesmo o...
- O inferno? Claro. Dê uma olhada: tudo é moderno por aqui. Primeiro mundo, companheiro!
E parecia mesmo. Painéis eletrônicos, caixas automáticos, máquinas de refrigerante, caça-níqueis, computadores por todos os lados.
- Nossa, tudo informatizado, é?
- Uma beleza, não? Os concorrentes - o Barbicha apontou para cima - estão na idade da pedra. Imagine você que eles ainda controlam tudo com fichário. Um hor-ror!
- É mesmo, é?
O Barbicha fez pose:
- Saímos na frente. Por isso estamos dominando o mercado. Eles - apontou para cima de novo, com desprezo - estão no vermelho há mais de 30 anos.
- É mesmo, é? - percebeu então que ficava repetindo aquela indagação.
- Hoje em dia não se pode dar sopa para a concorrência.
Acenou com a cabeça, a concordar. Havia sido grande empreiteiro na Terra.
Andaram por uma avenida agitada, gente correndo de um lado para outro. Não resistiu e perguntou:
- Vou ter de usar esta roupa ridícula como todo mundo?
O Barbicha ficou meio sem graça:
- Você não gostou? Puxa, foi o Clodovil quem desenhou.
- Ele está aqui?
- Esteve, mas se revelou um grande ‘mala’, mandamos de volta.
- Ahh...
Entraram em um hotel. O rapaz da portaria consultou o computador.
- Tudo certo. Sua reserva está ok.
Um telefone tocou. Só então percebeu que o Barbicha carregava um celular preso à cinta.
- Vou ter de deixá-lo. Mas fique tranquilo, o serviço aqui é cinco estrelas. - o diabo disse.
- Desculpe-me, mas ainda tenho um monte de dúvidas.
- Não esquenta a cabeça que derrete o chifre. Rá-rá-rá! Brincadeirinha. No seu apartamento você vai encontrar um CD-Rom com todas as informações.
- Só mais uma perguntinha, uma só...
- Manda!
- Eu merecia vir pra cá?
- Não seja modesto, é horrível. Você fez tudo certo e está aqui neste lugar ma-ra-vi-lho-so, isto é o que importa.
- Fazer tudo certo, para você, significa que cometi muitos pecados?
O Barbicha deu uma gargalhada, digamos assim, diabólica:
- Pecados? Tem dó, que conceito mais antiquado! Acho que nem os nossos concorrentes empregam mais o termo. As pessoas na Terra somam pontos, cumprem metas, entende?
Entendia de metas como ninguém.
- Mas eu dei esmolas, fiz coisas boas, isto é, ruins, não sei...
O Barbicha ficou sério. Levou o dedo indicador aos lábios.
- Shhhhiu, seu burro! Quer estragar tudo? Tive de subornar um anjo neutro para esquecer estas bobagens e liberar seu passaporte rapidamente.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS

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