Noite quente, programação de TV meio chata, bate a vontade de tomar uma cerveja. E o Boca, duraço, sai para encontrar algum amigo em melhor situação, que possa, digamos assim, financiar o seu relax.
Circula pelos points da vila. Num dos botecos, cruza com o Zé Galinha, funcionário dos Correios, que normalmente tem algum no bolso. O problema, pensa o Boca, é que o papo do Zé não desenvolve, entende?
Tudo bem: uma cerva geladona vale mais que mil palavras.
- E aí, mermão? Tudo em cima?
-Beleza.
- Como vão as coisas?
- Levando.
- , no bom sentido, né?
- No bom sentido.
Boca passa a mão na barba por fazer, olha a garrafa suada e o copo do amigo sobre a mesa.
- Pô cara, posso dar um bico nessa loira?
- Vai firme.
Boca acena para o dono do bar:
- Ô Alemão, descola um copo americano!
Bebe o primeiro gole. Então surge aquele momento em que dois homens estão frente a frente e precisam de um assunto.
- E aí, conseguiu trampo? - Zé Galinha pergunta por perguntar.
- Tenho um negócio legal engatilhado.
- Certo.
Novo silêncio. Zé Galinha despeja mais cerveja nos copos. Boca arrisca:
- Pô cara, você viu esse lance das bolsas?
- Parece que o trem tá feio, né?
- Crack na bolsa é a maior droga.
Zé Galinha ri.
- Crack é uma droga...
Boca ri.
- Pô cara, só o Bill Gates...manja o Bill Gates, o panaca mais rico do mundo?
- Tô ligado.
- Só o Bill Gates perdeu 1,6 bilhão de dólares.
- Putzgrila!
- 1,6 bi de verdinhas, sabe o que é isso?
- Provavelmente não vou conseguir uma grana dessas nem somando todos os meus salários até o fim da vida.
- Gostei do ‘provavelmente’. Você é um cara otimista.
- E não é para ser?
- Claro, claro. Mas a dureza tem um lado bom: a gente nunca vai perder tanta bufunfa assim na bolsa de valores.
- É verdade.
Zé Galinha pede mais uma cerveja. Boca se anima:
- Esse negócio de bolsa é tudo armação pra tomar dinheiro de trouxa, sacou?
- Armação.
- É, cara, um mundo de papel.
- Ouvi falar que a culpa foi do...King Kong? Sei lá, como é mesmo o nome daquele lugarzinho lá na China?
- Hong Kong! Globalização é isso aí. Manja a teoria do caos?
- Mais ou menos.
- Uma borboleta bate as asas em Hong Kong e a gente quebra aqui no Brasil.
- ‘A gente’ é modo de dizer.
- Claro, claro. Modo de dizer. Eu já nasci quebrado.
Os dois riem.
Zé Galinha tira uns trocos do bolso. Levanta-se, paga a conta:
- Minha grana acabou, cara.
- Tá limpo, Zé.
- Vô nessa.
- Té.
Boca dá uma espiada geral. Descobre o Arnaldinho bebendo num canto com uma garota. Aproxima-se:
- E aí cara, tudo em cima?
- Legal. E você?
O amigo apresenta a gata. Boca aproveita e puxa uma cadeira:
- Pô cara, viu esse lance das bolsas?
Logo vai pedir outro copo ao Alemão.BORGES
‘‘Borges não existe, foi inventado pelos franceses’’. O próprio Jorge Luis Borges disse isso, eu acho. Os franceses gostam mesmo de enganar a gente. Por exemplo: os Três Mosqueteiros (que, aliás, eram quatro) não usavam mosquete, só garrucha e espada.
ELEIÇÕES

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