Não levava jeito para contorcionista. Quando o velhote que ocupava o assento bem debaixo do seu nariz resolveu se levantar e fazer soar a campainha, teve breve sensação de felicidade. Ônibus estufado, ele estava disposto a conquistar o lugar na porrada, se fosse preciso. Pisou no pé de uma freira.
- Êpa, êpa, esse tem dono, irmã! - Berrou, ajudando o idoso a atravessar o bolo de gente com providencial empurrão.
Meteu o cotovelo em um careca que, aliás, acabara de dar cotovelada no queixo de uma estudante. Enquanto o careca e a moça discutiam, pôde esparramar o traseiro no banco duro como se fosse um marajá sobre almofadas de cetim.
Pensou: finalmente dou uma olhada no jornal. Ao lado, uma mulher pálida, de olhos sonolentos, segurava uma criança em pé, que parecia apreciar o forte vento a entrar pela janela escancarada.
Depois de constatar que duas mãos são insuficientes para se ler jornal naquelas condições, tossiu, ajeitou o cabelo, gesticulou. Nada.
Resolveu falar com a mulher.
- A senhoria poderia...
A resposta foi seca:
- Não posso fechar.
Tentava ler o jornal dobrado e redobrado quando o ônibus chegou ao terminal central. Então entrou pela janela a esperança de que sua vizinha desembarcasse, acompanhando boa parte das pessoas que antes se espremiam e brigavam por um espaço na sociedade, digamos assim, anônima.
Olhou para a mulher, de soslaio, e encontrou aquele par de olhos sonolentos. Disfarçou. A criança - não tinha certeza se era menino ou menina - continuava na janela e agora não havia vento. Mas assim que o veículo voltasse a se locomover, o problema reapareceria.
Sugeriu à mulher que fechasse parte da janela. Havia o risco de a criança cair fora do ônibus em caso de freada brusca.
- Dias atrás, em um carro de outra linha aconteceu um acidente horrível - mentiu, sádico. Agora a mulher pálida teria de ceder.
- Não posso - ela respondeu, com a mesma indiferença.
O ônibus arrancou e ele desistiu de ler o matutino. Mesmo porque já começava a escurecer e notícias envelhecem rapidamente.
Incomodado, evitando perder o controle, esticou o pescoço à procura de outro lugar vazio. Tentou observar o comportamento de alguns passageiros. Ninguém dava sinal de que estava prestes a descer. Além disso, ainda havia algumas pessoas em pé, entre elas uma mulher grávida com pacotes.
Não há mais cavalheiros nesta cidade - pensou, murchando no banco.
A janela voltou a soprar, louca.
Voltou-se para a vizinha. Tentou apelar para o argumento de este é um país democrático etc, ...
- O que é isso? - a mulher perguntou.
- Isso? o quê?
- Demo...demotráqui...esse negócio aí que o senhor falou?
- De-mo-crá-ti-co!
A mulher coçou o nariz. Não adiantava explicar. Buscou outra alternativa. Alegou sofrer de bronquite:
- Vento é um veneno.
A mulher impassível mostrou algum interesse:
- Faz tempo?
- Uns três anos.
Resmungou alguma coisa que ele não entendeu.
Aí aconteceu: calmamente, a mulher fez a criança sentar e fechou a janela. Ele até deu uma mãozinha. Sem o vento incômodo, preparou-se para reabrir o jornal. De repente, foi surpreendido por um gesto da vizinha: ela inclinou a cabeça do filho. O menino - agora ele tinha certeza de que se tratava de um menino - acabara de vomitar.
- Não disse para o senhor que eu não podia fechar a janela? - justificou-se a mãe.
Espumando, o homem ergueu-se e foi aguardar sua parada próximo à porta. Desceu, ouviu um trovão. Logo começaria a chover. Chegou em casa sem vontade de nada. A esposa e os filhos haviam ido visitar parentes em Astorga. Finalmente teria paz. Lar, doce lar.
Ali estava um homem na porta do paraíso.
Revistou os bolsos inutilmente: esquecera o chaveiro em uma gaveta de sua mesa, no escritório.TEMPO, TEMPO

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