Tec, tec, tec. Logo cedo, o homem ouviu barulho de pedreiros trabalhando.
Seria no quintal da casa dele? Ficou intrigado. Abriu a janela lateral.
Tec, tec, tec. Balançou a cabeça e comentou com a mulher, que deveria estar em algum outro canto da casa:
- Viu isso, Solange?
- O que, homem? - Ela gritou.
- Humpff...
- Você disse alguma coisa?
- Não disse nada. Só fiz ‘‘humpff’’...
- Toda vez que alguma coisa o aborrece, você faz esse ‘‘humpff’’.
- Humpff...
A mulher desistiu de espanar o pó dos móveis, foi ver o que estava acontecendo.
Tec, tec, tec...o som da colher de pedreiro nos tijolos entrava mais forte pela janela.
O marido continuava lá, a espiar com ar de desprezo.
Tec, tec, tec. Dois sujeitos, certamente patrocinados pelos novos vizinhos, fumavam e assentavam tijolos no muro, que assim ganharia mais altura.
- Eles podem fazer isso? - A mulher obviamente não se referia aos pedreiros, mas aos vizinhos.
- Poder até podem, mas é uma falta de educação.
- Até parece que a gente tem muito interesse em saber o que se passa na casa deles.
- Pra mim é ótimo, nunca gostei de ficar cruzando olhares com esses arrogantes.
O homem fechou a janela.
Tec, tec, tec. Os pedreiros continuaram a fumar e a assentar tijolos.
- - -
Passaram-se alguns dias.
- Alfredo, Alfredo, corre aqui, vem ver uma coisa!
Ela olhava pela janela da frente, a cortina entreaberta.
O homem:
- O que foi?
- Olha só aquele carro.
- Humpff...
- Zerinho!
- É...parece importado, Mitsubishi, Subaru. Japonês, com certeza.
- Os vizinhos estão com muito, hem?
- Humpff...
- Você viu a geladeira que chegou ontem? Não é que eu fique cuidando da vida deles, mas ouvi um caminhão parar aqui na frente de casa, então...
- Esse sujeito deve estar roubando, traficando cocaína. Qualquer hora a coisa explode. Ainda vamos ter polícia aqui no bairro, Solange. Pode escrever o que estou falando.
- Deus me livre, Alfredo.
- - -
Solange voltava da feira, a empurrar o carrinho cheio de verduras e legumes. Coincidiu: a vizinha estava saindo de casa, com carrinho semelhante, mas não tão usado.
- Bom dia - disse a mulher, loira, esbelta, lembrando a Solange uma estrela de seriado de TV.
- Oi, como vai? - Solange sorriu de modo que só ela poderia saber se era um riso cínico ou meramente simpático.
A partir daquele dia, quando as mulheres se encontravam, trocavam comentários banais.
Então aconteceu algo surpreendente. Os vizinhos iriam sair em férias. Peguntaram a Solange se ela poderia ficar com a chave da casa deles e alimentar os peixinhos do aquário, de vez em quando.
Solange consultou o marido, que se limitou a fazer um muxoxo e aquele seu ruído sinalizador de aborrecimento.
- Sim ou não, homem?
- Tanto faz.
A mulher concordou em ficar com a chave e cuidar dos peixes. À noite, logo após a partida dos vizinhos, ela parecia nervosa.
- Qual o problema? - perguntou Alfredo, sem desviar os olhos do noticiário da TV.
- Nada, não - disse, apertando o chaveiro na mão úmida de transpiração.
- Você não está querendo...
- ...Ir lá agora mesmo.
- Está?
- Acho que sim.
Alfredo ergueu-se da poltrona animado.
Tiveram dificuldade para encontrar a chave certa. Estavam excitados como duas crianças prestes ainvadir uma fábrica de chocolates.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS

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