Nelson Capucho
O amor.
Ah, o amor com suas luzes e melodias.
Os olhos brilham, os corpos ficam mais ágeis.
O amor alivia o fardo dos dias.
O amor inventa arco-íris nas tardes de chuva.
Foi assim: descobriram que estavam apaixonados e mergulharam de cabeça no oceano.
Casaram-se três meses depois.
E tiveram um filho.
O casamento ia bem até que, numa manhã de outono, ela resolveu mudar o visual.
Encurtou o cabelo e as saias.
Aumentou o tempo de permanência diante dos espelhos (do banheiro e do quarto).
Bobagens.
Mas qualquer bobagem - às vezes, um gesto, um jeito de olhar, um silêncio - pode disparar o gatilho do ciúme.
- Cadê o brinco? - Perguntou, quando ela voltou do dentista.
- Que brinco? (ela levou instintivamente a mão à orelha esquerda, justo a que estava sem o ornamento)
Aí nasceu o inferno.
O ácido da desconfiança.
Ele viajava e dizia: volto sexta-feira. Reaparecia de surpresa na quarta.
Virou doença.
Brigavam à toa.
- Foi à reunião na escola do Júnior? - Ele quis saber.
- Fui, por quê?
- Como voltou para casa?
- O Jorge, pai do Ricardinho, me deu carona...
Declaração de guerra.
Ele saiu para trabalhar, deixou o carro na terceira esquina. Retornou a pé e ficou esperando, atrás da casa, a chance de entrar como um ladrão.
Com passos de felino, atravessou a cozinha e a copa.
O filho brincava na despensa. A mulher fazia exercícios na bicicleta ergométrica, instalada no banheiro.
Escondeu-se no guarda-roupas do quarto do casal. O coração acelerado.
Hoje descobriria os segredos da infiel.
Puxou a porta, deixando apenas uma fresta para respirar. Estava quente e abafado.
Tirou o paletó, depois a camisa.
Ainda incomodado, despiu a calça.
No quarto ao lado, o menino ouviu barulho. Ficou intrigado. A imaginação infantil abriu as suas asas: só podia ser um fantasma.
- Manhêêê!
A mulher foi até o quarto, espiou aqui e ali, desinteressada. Passou a mão na cabeça do filhote...e trancou a porta do guarda-roupas.
Bicho ferido, arfando no escuro, aguentou até o filho ir para a escola. E então bateu na porta, pediu ajuda.
Só de cueca, arrasado e molhado de suor, saiu do esconderijo direto para o chuveiro.
A mulher quase rolou de rir.
O amor.
Ah, o amor - mais que o futebol - é uma caixinha de surpresas.
Depois daquele episódio ridículo, ele mudou. Uma semana sem fazer qualquer comentário ferino, um mês sem demonstrar insegurança.
Lar, doce lar.
Os vizinhos já estavam ficando entediados.
Sabe-se lá por que, um dia ela cismou:
- Ele está levando a ginástica a sério, começou a comprar roupas de grife e, para um homem que nunca foi vaidoso, ficar usando até cremezinho na cara, não sei, não...- queixou-se para uma amiga.
Ele chegou tarde do trabalho.
- Onde você estava? - Ela quis saber.
- Tomando uma cervejinha com o pessoal do escritório, por quê?
- E o que é isso aí na sua camisa?
- Isso o quê, mulher?
- É batom, seu...
- Que batom, tá louca? Não tá vendo que é catchup?
O inferno, 2.





