Nelson Capucho


Palpites
Nunca foi um sujeito muito chegado a arriscar a sorte.
Detestava baralho, corrida de cavalos, bingo, palitinho, telefones 0900 e sempre torceu o nariz para a jogatina oficial do cassino Brasil. Até o dia em que encontrou uma nota de R$ 1,00 enroladinha, presa ao portão da casa. Desenrolou o dinheiro (se é que se pode chamar R$ 1,00 de dinheiro) com a paciência de um monge budista. Estava ali, absorto, a olhar a nota, já preparado para encontrar alguma daquelas gracinhas sem graça ou bobagens cabeludas que otários costumam rabiscar no nosso papel-moeda, quando apareceu um amigo. Contou o ocorrido e ouviu a sugestão:
- Joga no bicho!
Não entendia lhufas do joguinho inventado pelo Barão de Drumond. Mas o outro conseguiu convencê-lo e o instruiu. Aproximou-se do japonês no fundo do boteco:
- Queria jogar no avestruz. É com o senhor mesmo?
O japonês chegou a pensar que se tratava de um gozador. Afinal, com todas aquelas papeletas em cima da mesinha, só podia estar recolhendo apostas.
- Seco? - perguntou o cambista.
- Pode ser.
No dia seguinte, passou pelo bar para conferir: acertou no primeiro prêmio. E ficou lamentando ter arriscado tão pouco. Recebeu a quantia em um envelope azul.
- Já imaginou se eu acertar uma milhar?
- Só ganha quem joga - opinou o cambista.
Três dias depois, encontrou no chão um tíquete de ingresso de um jogo de futebol. O número o inspirou. Apostou no cachorro. Não acertou, mas passou raspando a trave.
- Deveria ter garantido o grupo - ensinou o japonês.
Quase um mês depois teve um sonho estranho: ele e dois amigos foram pescar, o carro encalhou e voltaram de mãos vazias e cheios de lama. Podia ser premonição. Saiu atrás de explicações que o conduzissem ao número certo.
- Lama é porco! - comentou um desses decifradores de sonhos alheios, que costumam passar o dia com a barriga no balcão. Ele achou óbvio demais.
- Jacaré, não há a menor dúvida - previu outro pé-de-cana.
- Jacaré ?
O outro riu, superior:á
- Tinha lama, não tinha? Então choveu. E sempre que chove no sonho dá jacaré.
Não ficou totalmente convencido. Telefonou para os dois personagens do sonho e foi garimpando números: da residência, do certificado de reservista, do título de eleitor, o diabo!
O que não faltava ao sonhador era palpite. Foi ao banco e sacou a grana do mês. Ainda ouviu do caixa:
- Não deixa de cercar a vaca e o porco. É melhor garantir o galo também.
- Tudo isso? Por quê?
- Vocês não conseguiram pescar nada, isso significa que teriam de comer outras misturas, entendeu?
- Vaca, galo, porco...Não é que dá um bom terno? Vou nessa.
A aposta gigantesca foi assunto do dia no bar. Ele ficou ansioso à espera do resultado. Ouvido colado no radinho, quase caiu duro:
- Gato!
Não queria acreditar. Gato? Por que o gato?
Arrasado, ouviu a mulher resmungar na cozinha, enquanto preparava o jantar com muita economia:
- Só um burro para não saber que o bicho que mais gosta de peixe é o gato.CONCLUSÃO
Vencer na vida
é...não morrer mais cedo
por causa dessa bobagem.
CONTRA
Pesquisa informal feita na última segunda-feira revelou que nenhum corintiano é a favor da aposentadoria especial ou de qualquer tipo de privilégio para os juízes.MÚSICA URBANA
Ah, o inferno sonoro das cidades: buzinaço, freadas, escapamentos abertos. Triste sinfonia essa, das britadeiras, serras, marretas.
Deuses dos sagrados tímpanos, por que tanto castigo? Por que o som das serras elétricas não podem ser como o do piano de Tom Jobim e os caminhões acelerando não soam como flautas doces? Hein?CUIDADO!
Neste exato momento
alguém pode estar tramando
pelas suas costas
algo de bom pra você.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
- ‘‘Um Presente de Nishinomiya para Londrina’’ é o nome do concerto programado para a próxima terça-feira, 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina. O elenco: Masaru Adachi (maestro), Teruyo Adachi (soprano), Keiko Tanaka e Kiyoko Katada (piano) e Fumiko Ando (flauta). Promoção da Secretaria Municipal de Cultura e Associação Intercâmbio Londrina-Nishinomiya.
- A bossa nova é o tema do show que a Cris e a Érica estão preparando com o maior carinho para a noite da próxima quinta-feira, no Divina Gula, em Londrina. Tô nessa.
- Em Curitiba, a poesia está no ar. É o Perhappiness-97, evento cultural em homenagem a Paulo Leminski. Segunda-feira, a festa contou com a participação dos londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, que estiveram lançando livros de poesia. ‘‘Eu Caminhava Assim Tão Distraído’’ é a estréia individual do Maurício, depois de muita cobrança dos amigos. Rodrigo retorna às livrarias com ‘‘Visibilia’’ (os dois títulos saem pela Editora Sette, do Rio de Janeiro). O fino do verso, com certeza.

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