Nelson Capucho
Como uma mulher pode conviver com um sujeito que destesta Stravinski?
Aquela pergunta ficou na cabeça feito velho disco de vinil enroscado. E desde que começou a pensar nos descaminhos do casamento, ela descobriu a insônia.
- Vai demorar pra apagar a luz? - o marido resmungou, certa noite, enquanto ela devorava um Simenon. No dia seguinte, a mulher comprou um abajur.
A casa não era grande, mas um casal sem filhos podia viver muito bem naquele espaço: Alvernaria, dois quartos, sala, cozinha, banheiro etc. - foi assim que descobriram na sessão de classificados do jornal o futuro lar-doce-lar.
Agora ela cismava que a casa era pequena demais para os dois. Talvez a cidade, o mundo, também. Franzia a testa, fitando o marido como o Randolph Scott costumava fitar o pistoleiro inimigo antes do duelo fatal (fatal para o outro, não para o Scott, é claro) em alguma cidadezinha em preto-e-branco do Velho Oeste norte-americano. O marido estava sentado diante dela, mas o desjejum sobre a mesa era uma espécie de Muro de Berlim.
Os dias iam se afogando, um a um, lentos.
Uma amiga do escritório, vendo-a sempre aborrecida, decidiu dar aquela força. Acabou chegando em casa duas vodkas com limão e quatro cervejas mais tarde que o habitual. Vivessem dias diferentes e o episódio renderia uma discussão daquelas.
- Não encosta esse pé gelado em mim! - o marido resmungou.
- Desculpa, desculpa.
Viraram as costas um para o outro e assim permanceriam eternamente se não tivessem que se levantar na manhã seguinte e encarar a vidinha outra vez.
Na primeira chance durante um cafezinho no escritório a amiga perguntou:
- Pensou no que eu disse?
- Pensei, pensei...- falou, meio desanimada.
- E então?
- Essas coisas são complicadas, você sabe...
- Deixa de frescura, Meire!
- Não quero tomar uma decisão precipitada, entende?
- Precipitado foi o seu casamento, Meire!
A amiga atirou o copinho de café no cesto de lixo e deixou uma frase enigmática no ar.
- Nenhuma mulher é uma ilha, Meire...
Na verdade, era plágio de um verso batido do Donne, mas incomodou. Sentiu inveja da amiga, que podia ouvir seus CDs prediletos sem headphone.
Telefonou para o marido no final da tarde:
- Não sei a que horas volto. Vamos ter uma reunião com a supervisora regional - mentiu.
Que noite, aquela! O grupo de amigos, coquetel, esticada a uma boate, luzes, música.
- Isto é que é vida, hem? - perguntava a amiga, de vez em quando.
Como todo mundo que enche a cara, achou que estava só um pouco alegre quando chegou em casa. Depois de dez minutos de briga com a fechadura, esfregou os olhos e conferiu a chave. Era aquela, tinha certeza. Aí descobriu que a porta é que estava de ponta-cabeça. Correu desajeitada para o jardim. Mal acabara de vomitar, percebeu a silhueta do marido.
- Acordei você? - perguntou, segurando a parede que ameaçava desabar sobre os dois.
- Não...acordei com o telefone. A supervisora regional queria saber se estava tudo bem com você - ele disse, sem fazer a mínima questão de esconder o punhal da ironia.
Ela acordou com dor de cabeça, estômago embrulhado, gosto de pó-de-serra na boca. O outro não estava em casa, mas deixou um bilhete: Mudei-me para o apartamento do Flavinho. Meu advogado vai procurá-la ainda hoje. Sem ressentimentos. Jorge.
Ela tomou um Engov e um Epocler. Ligou para o escritório justificando a ausência. Depois botou Le Sacre du Printemps para tocar. Aumentou o volume. Quando abriu a cortina da sala, espantou involuntariamente um pássaro que havia pousado na grade da janela. Ficou observando o vôo da ave até que ela desapareceu.
Era setembro. Céu azul. E os ipês estavam floridos.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS





