Nelson Capucho
Em qualquer happy-hour etílico existe um momento decisivo. É quando os pais de família dizem: Bom, vamos indo que está na hora. E os alcoólatras complementam: Pô, logo agora que estava ficando animado.
Dizem que o indicador do momento decisivo é a quinta cerveja ou a terceira dose de uísque. Mas o assunto merece um estudo mais aprofundado, uma tese, um tratado, algo assim. Isto ainda não foi possível porque não é trabalho para amadores. Eles jamais entenderiam o espírito da coisa. Já os profissionais não conseguem realizar a tarefa porque depois de algumas horas de pesquisa sempre acabam perguntando com a língua enrolada: Como era mesmo aquela coisa do espírito?
Quarta-feira, início da noite, lá estão os dois amigos na mesa do bar. Um deles é jornalista. O outro, aparentemente, trata-se de uma pessoa normal. Já atravessaram a linha que separa a sobriedade da alegre irresponsabilidade.
- E a princesa, hem?
O jornalista torce o nariz:
- O que é que tem a princesa?
- A princesa Diana, aquele desastre horrível, os paparazzi...
- Acho tudo isso um saco!
- Não sabia que você se irritava com a nobreza britânica, esse sentimento típico de quem rejeita o inalcansável...
- Rá, rá, rá...a mulher jantou no Ritz em Paris, tomou champagne, entrou na Mercedes ao lado de um milionário: bateram o carro e morreram. Isto parece final de filme B.
- Era uma princesa!
- Princesa pras negas dela. O único príncipe que eu conheço é o Paulinho da Viola.
- Nacionalismo está fora de moda, cara. O mundo é global!
- Global e oco! Como o cérebro destes jecas.
- Mas vocês da imprensa deram o maior espaço...
- A imprensa está cheia de jecas que sonham com a corte. O Betinho morreu e nenhum jornal fez caderno especial...
- Diana era um mito internacional, um ídolo!
- Meus ídolos são eu e Deus.
- Nesta ordem, naturalmente.
- Insisto: o Betinho foi muito mais importante para nós que esta Lady Fofoca.
- Peraí! Peraí! Quem divulgava as fofocas? Quem ganhava dinheiro com isso? Quem perseguiu a coitada até a morte?
- Uns idiotas, que trabalhavam para alimentar a curiosidade daquelas inglesas na menopausa e daqueles pés-rapados de paletó puído e gravata fora de moda. Aquelas pessoas que foram levar flores ao castelo e pichar muros com frases contra os paparazzi são as mesmas que compram os tablóides sensacionalistas.
- Não acredita no sentimento alheio?
- O que os ingleses choram é a perspectiva de falta de assunto no barbeiro e no cabeleireiro. Sem Diana a vida deles vai ficar mais chata.
- Então a sua bronca é com os ingleses. Daqui a pouco você vai dizer que eles eram donos da Light, compraram até o Rui Barbosa...Que coisa mais anos 70, tem dó!
- Somos hipócritas é um artigo que deveria ser incluído na Constituição de todos os países.
- Falou o paladino!
- Hipocrisia! Eu quero uma pra viver! (canta, tentando imitar o Cazuza).
- Você está ficando alterado.
- Alterado uma pinóia! Nunca estive tão lúcido.
- Fala baixo!
- Quem você pensa que é para me dar ordens? Seo fantochezinho inglês.
O outro se levanta, agressivo:
- Ôpa, aí já é demais!
- O que que é?
- O que que é o quê?





