Nelson Capucho
Chegou cedo à firma. Sempre foi pontual.
- Fio, o homem quer falar com você - disse a secretária, meio cabisbaixa.
O nome dele era Jesus. Mas todo mundo ali o chamava de Fio. Quando conseguiu o emprego, vinte anos atrás, os funcionários mais antigos costumavam brincar: Então você é que é o filho de Deus?. Aproveitavam o espírito e empurravam tarefas estafantes para as suas costas. Nunca reclamou. E seu esforço acabou sendo recompensado com promoções. Depois ficou sendo apenas Filho. E, finalmente, Fio. Seo Fio, para alguns, quando se tornou gerente de seção.
Agora, o filho de Deus seria demitido.
O patrão recebeu Jesus na salinha de carpete amarelo, falou da globalização, da reengenharia e o mandou passar no departamento pessoal.
No elevador, manteve a classe de executivo e a fibra de descendente de sertanejos: Jesus, você é antes de tudo um forte. Assinou a papelada, viu as cifras e preferiu não se despedir dos colegas. Saiu andando a esmo pelo Calçadão sentindo um estranho misto de alívio e medo. Fez as contas de cabeça e decidiu: não contaria nada à família. Não valia a pena. Teria dinheiro para se manter por uns três meses sem mudar o padrão de vida. Em 30 dias, no máximo, conseguiria outra colocação.
Não gostaria de dar nenhuma notícia desagradável para a mulher, já abatida com a recente morte da Lili, a cachorra de estimação, e com os fungos que aniquilavam as suas orquídeas. Que fase! Que fase! - lembrava-se do lamento da esposa.
A mulher o pressionava, ou, pelo menos, ele tinha esta impressão toda vez que ela comentava sobre a vida da irmã. O cunhado vinha se saindo muito bem no mercado de capitais. Compraram uma chácara, foram à Europa, adquiriram um carro japonês. Jesus, embora sem grandes ousadias, mantinha a vidinha. Bem ou mal, proporcionava alguns luxos à família.
Não, não diria nada. Os filhos (um casal) poderiam ficar deprimidos com a perspectiva de enxugamento na mesada, menos shopping, nada de viagem nas férias, essas coisas. E isso acabaria se refletindo no desempenho escolar deles - aliás, a escola particular custava uma nota!
Não, não diria nada.
Foi ver CDs nas Lojas Americanas, tomar um café no quiosque, sentar-se num banco da praça. Coisas simples que ganhavam nova dimensão. Por um lado, era interessante ficar à toa antes do almoço ou no meio da tarde, em plena segunda-feira. Por outro, pesava-lhe a sensação de inutilidade. Mais alguns dias - ainda que procurasse manter vivo o otimismo - iria se sentir um bagaço de laranja.
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Não comentou nada em casa. Nem naquele dia, nem nos seguintes. Tomava banho, arrumava-se, pegava a pasta de couro que o acompanhou por vários anos, beijava os filhos e a mulher e se dirigia ao inexistente compromisso diário. Voltava no início da noite, mentia alguma coisa a respeito do serviço, ia levando.
No início, ocupava parte do tempo vendo classificados dos jornais, telefonando do celular para velhos amigos, enviando currículo para algumas empresas. De repente, parecia que todas as vagas do mundo estavam preenchidas. Jesus acabou cedendo à inércia. Um mês depois, tinha vontade apenas de ficar sentado num banco de praça olhando, pensando, olhando, pensando...
Começou a ter pensamentos esquisitos. Sentado diante de grande agência bancária, tentou imaginar um assalto perfeito. Acho que todo desempregado já gastou algum tempo a pensar nisto, disse para si mesmo, com um sorriso amargo nos lábios. E eu lá sou homem de me meter em coisa errada?
Naquela noite, esperou a família dormir e fez algumas contas. Chegou à conclusão de que não tinha saída. O dinheiro evaporava. Só daria para as despesas daquele mês. Era preciso abrir o jogo. Ficou com vontade de acordar a mulher e os filhos e desabafar de uma vez. Faria isto de manhãzinha.
Então teve o sonho - ou pesadelo - decisivo. Um bicho enorme o perseguia num ambiente escuro e esfumaçado. Ele correu para um beco. Seria destroçado. Encontrou um revólver sobre uma lata de lixo. Disparou uma, duas, três vezes. Não adiantou. O grande animal saltou sobre ele. Acordou assustado, arfando. Ficou deprimido. Durante o café da manhã com a família não teve coragem de falar sobre a sua situação. Voltou à rotina das praças e do Calçadão. Passou em frente a uma loja de armas e viu na vitrine um revólver igualzinho ao do sonho - ou pesadelo. Andou mais um pouco. Pensou em voltar. Um velho caminhava na sua direção com um bilhete de loteria na mão:
- Tigre e Borboleta! Olha o tigre! Olha a...
- Qual é o tigre? - Jesus nunca gastara um tostão em jogo em toda a sua vida. Sabia muito bem quais eram as probabilidades de se acertar numa loteria. Mas pensou no pesadelo - ou sonho - e comprou o bilhete.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS





