Manhãzinha. A menina entra no banheiro e puxa a camisa de pijama do pai, enquanto ele escova os dentes.
- Posso contar uma coisa?
- Hum-hum - boca cheia de espuma, ele responde sem prestar muita atenção à filha.
- Promete que não vai se assustar?
Parece ser coisa séria e o pai finge que se assusta quando a menina emenda:
- Tem um leão dentro do seu carro.
- Um leão, é?
- É. Bem grandão!
Passa a mão na cabeça da filha. Crianças nessa idade...
- Amarelo?
A menina pensa um pouco:
- Mais ou menos.
- Com uma jubona deste tamanho?
- É. E uma linguona também.
O pai penteia o cabelo, de modo que disfarce a inevitável devastação capilar em curso. Ri para o espelho.
- Já tomou café, filhota?
A menina responde que sim, encostando o queixinho no peito. E retoma o assunto:
- Acho que o leão estava com sono.
- Ah, o bicho dormiu no carro do papai?
- Não, não. Ele ficou acordado.
- E como você sabe que o leão estava com sono?
- Ele abriu aquela boca enorme e fez assim: uáááááá! - a menina imita o bicho.
A caminho da cozinha, o pai resolve dar corda à filha:
- Como será que ele entrou no carro do papai?
- A mãe pediu para a Salete limpar os bancos e ela esqueceu a porta aberta. Aí o leão veio e entrou porque lá dentro é quentinho.
- Será que o leão ligou o toca-fitas?
A menina fica emburrada:
- Eu não tô brincando. Pode perguntar pra mamãe.
Só então ele se dá conta de que nem a mulher nem a empregada estão por perto. Chama e nada. Claro, não ia se deixar envolver pela fantasia da filha.
Sai no quintal e vê as duas, mulher e empregada, pálidas e duras feito estátuas. Ouve a sirene do caminhão do Corpo de Bombeiros.
E percebe que além do caminhão vermelho, mais dois veículos pararam diante da casa: um jipe, com homens armados e uma caminhonete do Gran Circo Americano, com uma jaula vazia.MULHERES, MULHERES

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