O homem está deitado sobre uma maca na sala de emergência do Hospital do Amor. O azul celeste predomina: o pijama do paciente, o lençol, a roupa dos enfermeiros, as paredes, as luzes, tudo azul. Menos, é claro, o rosto do sujeito na maca, que parece um tomate maduro.
Ele luta, resiste, insiste. Não quer ser submetido àquele tratamento, mas fazer o quê? Seu caso parece grave. Não fosse assim, teria sido examinado pelo plantonista, devidamente medicado e não estaria aqui, dando um trabalho danado à eficiente equipe do Dr. Theodomirus Sfriafodd.
Entra na sala o respeitado especialista, barbicha e olhos vidrados atrás dos óculos, contrastando com seus gestos tranquilos.
- E então, como está o homem? - o médico pergunta ao enfermeiro-chefe.
- Tá maus.
- Aplicaram um calmante?
- Perfeitamente.
- Já sabem qual é o vírus?
- Oh, sim, sim. Quando chegou ao plantão, conduzido pelos familiares, ficava repetindo ‘‘Marina, Marina...’’, com aquele sorriso idiota, quero dizer, aquele sorriso característico de casos número 3.
- Disse mais alguma coisa?
- Bem, algo do tipo ‘‘ah, que boquinha...ah, que olhinhos, ah, que bundinha...’’, o senhor sabe.
- Mencionou os pezinhos?
O enfermeiro pensa um pouco, consulta os colegas com o olhar.
- Acho que não.
- Tudo bem. E o batimento cardíaco?
- Um pouco acelerado, ainda.
- Temperatura?
- Elevada, agora em declínio.
O doente resmunga alguma coisa com dificuldade, faz sinal para o médico se aproximar.
- Tirem esse esparadrapo da boca do paciente, pelo amor de Deus - ordena o doutor Sfriafodd.
- Marina...Marina...
- Recoloquem o esparadrapo.
- O sr. acha que devemos usar o tratamento de choque?
- Ainda não. Tragam o equipamento de estimulação visual.
Um enfermeiro aparece com algumas fotografias ampliadas: Xuxa, Claudia Schiffer, Sharon Stone, Camila Pitanga. O médico coloca as fotos diante do nariz do paciente. Ele balança a cabeça, com sintomático desinteresse. O doutor Sfriafodd coça a cabeça. É um caso número 3.
- Tragam os vídeos.
- Todos?
- Todos, menos ‘‘Traseiros Ardentes’’, que aí também já é baixaria.
Ligam o aparelho de videocassete, ajeitam a TV na frente do sujeito. Exibem trechos de filmes. E nada. Ele olha para algum ponto no infinito, onde com certeza enxerga apenas a causa de sua enfermidade.
O doutor Sfriafodd tira e repõe os óculos, enxuga o suor da testa.
- Não temos saída.
- Tratamento de choque?
- Manda ver. Mas antes, tirem esse esparadrapo.
O paciente vai falar, mas não tem tempo. Alguém aperta três ou quatro botões em um painel e a sala é invadida por atordoante dance-music. Luzes coloridas explodem por todos lados, de algum canto sopra um jato de fumaça. Médico e enfermeiros se afastam. O momento é decisivo.
Entra em cena a arma secreta do doutor Sfriaffod contra paixonite aguda. É uma gata de paralisar atacante no instante do gol. Ela se veste pouco e dança muito. O paciente reage. A garota inicia um striptease. O paciente está sentado na maca. Vai funcionar. A equipe torce nos bastidores. O paciente caminha em direção à moça. O doutor Sfriafodd e os enfermeiros se abraçam. Mais um sucesso!
Cessa a música, apagam-se as luzes multicoloridas. O paciente continua abraçado à garota. O médico se aproxima:
- Como está se sentindo?
- Ótimo. Muito obrigado por promover o nosso reencontro, doutor.
- Hem? Como assim? Mas você não é a Margot?
- Margot é nome artístico, doutor. O verdadeiro é Marina. O senhor não acha uma coincidência incrível?
E o paciente ali, com aquele sorriso idiota.NASCIMENTO E MORTE

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