Nelson Capucho
O homem vai ao banco no meio da tarde. Pretende depositar algum dinheiro, pagar umas contas, essas coisas que pobres mortais ainda precisam fazer em um banco. Na porta giratória, ele enrosca:
- Ué, o que houve?
Atrás da parede de blindex, o vigilante - com a postura de autoridade que o uniforme e o revólver lhe conferem - ordena, apontando para a caixinha no meio do vidro:
- Bota aqui o telefone celular, senão não entra!
- Ah, é verdade, o celular - diz o homem, constrangido como se fosse portador de terrível arma.
Aprisionado entre duas portas de vidro, como um tubarão no aquário do Sea World, o cliente coloca o aparelho na caixinha e tenta ir em frente. A porta continua travada.
- Assim não dá, tem que voltar e entrar de novo - diz o vigia, com certo olhar de enfado.
O cliente obedece. Mas fica preso pela segunda vez.
- É algum metal, tem que entregar tudo! - o olhar do guarda agora lhe parece ameaçador, como se dissesse: todos são assaltantes até prova em contrário.
- Seria a chave do carro?
- É metal?
Nem responde. Entrega o chaveiro. Volta, gira a porta e...novo problema:
- Mas o que está acontecendo?
- Agora o cliente começa a perder a paciência. Além disso, precisa se justificar com a fila que vai se formando na entrada do estabelecimento.
- Metal, já disse. Se tiver metal não vai abrir! - diz o zeloso vigilante.
- Mas não tenho mais...
- Ah, tem sim. Alguma coisa está travando a porta.
- Putz! Só se for o isqueiro...
- De que tipo?
- Zippo.
- Hem?
- Tipo binga.
- Ahh...então é metal.
Deposita o isqueiro na caixinha. A porta teimosa trava outra vez.
- Aí já é demais!
á- Moedas em grande quantidade também travam a porta.
- O quê? A gente não pode mais entrar num banco com moedas?
- Em grande quantidade, não.
- Isto é absurdo!
- Estamos garantindo a sua segurança.
- Esta situação ridícula é que está me deixando inseguro - resmunga.
Enquanto os dois discutem, outra fila se forma dentro do banco: a dos clientes que querem sair. E a porta giratória travadinha, travadinha.
- Não tenho moedas, não tenho marcapasso, nem prótese dentária, nem pinos no joelho, nada, não tenho mais nada de metal! O mecanismo desta maldita porta é que deve estar com defeito!
- O mecanismo está perfeito. O problema só pode ser com o senhor...
- Pra mim chega! - O sujeito junta apressadamente todos os seus objetos metálicos e vai embora, espumando. Pagaria as dívidas com juros, abriria conta em outro banco, que se danasse o mundo!
À noite, ouve a notícia na TV: assaltada agência bancária. Não acredita no que vê e ouve: é justamente aquela. Segundo o repórter, ninguém conseguiu entender até agora como os bandidos entraram no banco com uma pistola 7.65, um rifle e uma metralhadora de uso exclusivo das Forças Armadas. A polícia acredita que possa ter havido algum defeito no mecanismo de segurança da porta giratória.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS





