Nelson Capucho
A história a seguir talvez mereça um daqueles avisos que precedem certos filmes B: é baseada em fatos reais. Os nomes (ou codinomes) das personagens, no entanto, são fruto da imaginação (ou falta de) deste cronista.
Anos de ditadura. No QG do partido proscrito, o Comandante chama o camarada Vladimir.
- Temos um problema, camarada.
O outro, sério:
- Desculpe-me, Comandante, mas o partidão é a solução! - Cita um eslogam de autoria do próprio Comandante, não aprovado pela comissão executiva.
- É verdade, é verdade - diz o Comandante, coçando a barba.
- Mas o que o preocupa?
- Nosso jornal, A Voz do Povo.
- Mas é um bom jornal. A cada dia conseguimos melhores articulistas. Os intelectuais têm-nos elogiado.
- Precisamos atingir os operários, os camponeses, o proletariado! O povo, camarada Vladimir, o povo!
- Bom, o último número vendeu 15 exemplares.
- É pouco. Vamos baixar o preço e contratar um garoto. Estamos falhando na distribuição.
Mãos às costas, Vladimir anda em volta da mesa.
- Acho que já tenho um candidato.
- Quem?
- O filho do Genésio.
- E quem é o Genésio?
- Meu vizinho.
- Aquele burocrata alienado?
- Mas o garoto é espertíssimo.
Na manhã seguinte, o Comandante dá instruções a um loirinho sardento chamado Jorge Luiz. Codinome: Ferrugem.
- Precisamos vender jornais, filho. Muitos jornais. Você vai ganhar 10% do que vender.
Ferrugem raciocina: a cada 30 jornais, vai poder tomar três sorvetes. Coloca o pacote na garupa da bicicleta e sai animado pela rua de paralelepípedos. No final do primeiro dia, havia vendido apenas cinco jornais. Aborrecido, queixa-se ao Comandante:
- Tem gente que pensa que o jornal morde. Não pega nem para dar uma olhada.
- Não desanime meu filho. Viver é lutar!
No segundo dia de serviço, Ferrugem volta ao QG entusiasmado. Vendera todos os 30 exemplares. Pega 50 na manhã seguinte. Vende tudo até o meio-dia. Assim que o menino faz o acerto de contas e vai embora, o Comandante e o camarada Vladimir abrem uma garrafa de vodca.
- Enfim nossas idéias começam a atingir o objetivo.
- Viva a Revolução! - festejam.
Do lado de fora, Ferrugem ouve o grito e pensa: essa tal de revolução deve ser coisa boa. Todos os meninos poderão vender jornais e comprar sorvetes.
Quando A Voz do Povo atinge a marca de 100 jornais vendidos, o Comandante resolve cumprimentar formalmente o menino:
- Parabéns, camarada Ferrugem! Você conseguiu realizar uma façanha.
Com sorriso leve em meio às sardas, o loirinho comenta:
- Depois que eu falei com o seo Michel, da mercearia, tudo ficou mais fácil, Comandante.
- Como assim?
- O seo Michel fez as contas e descobriu que sai mais barato comprar o nosso jornal pelo preço de capa do que jornais usados, por quilo. Ele precisa de muito papel para embrulhar as mercadorias. E o Seo Brás, do açougue, também está interessado.
O Comandante leva as mãos à cabeça.
- Não! Você não fez isto...
Demitido, Ferrugem sai pedalando a bicicletinha, com uma dúvida enorme na garupa: afinal, esses comunistas querem ganhar dinheiro ou não?TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
- Na semana passada, dois paranaenses foram destaques nos maiores jornais paulistas. O Estado de S. Paulo deu boa matéria sobre show do londrinense Arrigo Barnabé e a Folha de S. Paulo abriu espaço para um desabafo de Itamar Assumpção (que na verdade nasceu em Tietê-SP, mas cresceu em Arapongas e iniciou carreira musical em Londrina). Itamar, que já gravou oito discos, promete ir embora para a Europa no fim do ano por falta de apoio à cultura erudita popular no Brasil. Ele diz ter material gravado para dois CDs (Pretobrás - Por Que Eu Não Pensei Nisso Antes?, volumes 1 e 2), mas precisa de patrocinador para colocar o trabalho no mercado.
- Cansei de ouvir abobrinhas/ Vou consultar escarolas/ Prefiro escutar salsinhas/ Pedir socorro às papoulas e carambolas (...) - Da inédita Abobrinhas, Não, de Itamar Assumpção.
- O cantor e compositor Toquinho, ex-parceirinho do poetinha Vinicius de Moraes, está gravando o hino oficial dos Jogos Mundiais da Natureza, que serão disputados de 27 de setembro a 5 de outubro na região de Foz do Iguaçu. Toquinho é gente boa. Mas o governo do Estado poderia pensar (se é que já não pensou) em incluir no programa da festa ecoesportiva um show com músicos paranaenses do calibre de Itamar, Arrigo e outras feras. Por que não?
- No próximo dia 15, membros da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, que compõem o júri do 39º Prêmio Jabuti, vão escolher o Livro do Ano (96) e os melhores livros nas categorias romance; contos; poesia; ensaio; tradução; reportagem; ciências humanas; ciências exatas, tecnologia e informática; ciências naturais e medicina; economia, administração, negócios e direito; capa, produção editorial, didático de 1º e 2º grau; infantil ou juvenil e ilustração de livro infantil ou juvenil.





