O advogado acaba seu desjejum e vai conferir o serviço do jardineiro:
- E aí, Braulino, como vão as coisas?
- Bom dia, doutor. Vai indo tudo bem, sim senhor.
O advogado observa as heras subindo pelos muros, as petúnias e as hortênsias nos canteiros, a grama bem aparada ao redor da piscina. Engatilha a pergunta inesperada:
- Você dorme bem, Braulino?
Cabeça baixa, disfarçando a surpresa, o jardineiro responde:
- Durmo feito uma pedra, doutor.
- Como é que pode?
- A gente chega em casa cansado...
- Mas você não tem preocupações? Saúde, dinheiro, essas coisas?
- Pouco com Deus é muito, doutor.
- E as grandes questões filosóficas?
- Filô o quê, doutor?
- Filosóficas, meu caro Braulino. De filosofia, a busca da sabedoria, do entendimento do ser, a ampliação incessante da compreensão da realidade.
- Aah...
- Vou lhe confessar uma coisa: só três perguntinhas já são suficientes para me perturbar a noite toda: Quem sou? De onde vim? Pra onde vou?...Isto não incomoda você?
O jardineiro ri, mostrando os dentes descuidados:
- Isso não me tira o sono, não senhor: eu sou o Braulino, marido da Odete. Vim do Jardim Ideal e quando acabar o serviço aqui, vou direto pra casa.
- Interessante. Mas você não tem inveja dos outros, ô Braulino?
- Tenho não, doutor.
- Não tem vontade de ser alguém importante?
- Como o senhor?
- Eu não sou nada, Braulino.
- O senhor é um advogado rico, famoso...todo mundo conhece o doutor na cidade.
- Um mini-prestígio, Braulino, só isso. Quando eu era menino imaginava que seria o Bruce Lee, o Humphrey Bogart, o Mohammed Ali..
- Vixe, doutor, não conheço esses homens do estrangeiro, não!
- Pra você ver como são as coisas. Quando entrei na faculdade, pretendia ser um advogado melhor que o meu pai, que já foi melhor que o meu avô. Depois sonhava em ser um dos maiores juristas do País. Agora sei que sou advogadozinho, igual a tantos outros. Você nunca pensou na insignificância do homem comum, Braulino?
- Não entendo bem as palavras do doutor, mas lá na vila tem três jardineiros. Todo mundo diz que eu sou o melhor. Isso me deixa muito feliz. Acho que meus filhos se orgulham de mim.
- Os meus só me olham como se eu fosse um caixa eletrônico.
- O doutor não me leve a mal, mas acho que o senhor está precisando é de uma benzeção.
- Ah, meu amigo, este é outro problema. Não acredito em nada que não possa ser medido, pesado ou fotografado.
- Tem muito fenômeno sem explicação neste mundo, doutor.
O advogado parece olhar para longe, além do muro, como se tivesse visão de raio X. De repente, volta-se novamente para o jardineiro:
- Escuta Braulino, vamos supor que eu lhe propusesse uma troca de personalidades e isto fosse possível. Quer dizer, você seria o advogado e eu me transformava no jardineiro.
- Seria engraçado...
- E então, você toparia?
- Só por uns tempos?
- Não, para sempre!
Braulino fica de cabeça baixa, meio envergonhado.
- Toparia não, doutor.
- Eu já desconfiava.
E o advogado retorna para o interior da mansão sentindo-se um musgo em meio à prataria.INFERNAL
Apesar da grande demanda, até o inferno, se fosse administrado por burocratas que seguissem corretamente as orientações dos marqueteiros modernos, já teria ido à falência. Claro que isto nunca vai acontecer porque Deus não tem o menor interesse.
COMPUTADOR
‘‘Custa menos que a pensão da sua ex-mulher e processa mais rápido que o advogado dela.’’ (texto de anúncio publicado na ‘Folha de S. Paulo’)CELESTIAL

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