Meninos gostam de colecionar bobagens. No meu tempo, eram carteiras de cigarro, gibis, qualquer coisa sobre os Beatles e soldadinhos dos vidros de Toddy. Agora acho que são os ‘‘tazzo’’ e os ‘‘cards’’ de jogadores de basquete e futebol. Alguns adultos também têm suas coleções: armas, carros antigos, discos, dinheiro etc. Mas vira e mexe surgem acervos insólitos.
Por exemplo: a distinta senhora Margot S., 35 anos, coleciona homens. No bom sentido, se é que isto é possível. Não se trata de uma conquistadora compulsiva, nem de uma amante platônica. Margot é uma mulher prática. Guarda, ou melhor, oculta, no sótão de sua residência 32 espécies devidamente mumificadas.
Um velho amigo meu foi convidado para conhecer a, digamos assim, homoteca. A curiosidade é a mãe da ciência e a perdição dos tolos. Aceitou. Contou-me depois que um calafrio percorreu-lhe a espinha enquanto era conduzido pela dona da casa até a macabra exposição:
- Alguns nem mudaram tanto - disse Margot, orgulhosa.
Ela apontou para um tipo de pele amarela:
- Aquele ali, por exemplo, comprei no Paraguai. Veio direto de Taiwan.
O ambiente era mórbido. Mas a Margot, que jamais concordaria com a observação dele, parecia uma menina exibindo suas bonecas.
- Olha este aqui, que sorriso lindo! - a mulher bateu três vezes com a unha na invejável dentição do sujeito. Era outro importado. Do sul da Itália, se não me engano. Margot tinha tudo catalogado. Origem, idade, profissão.
- Agora vou te mostrar a maior raridade.
- Parece um anão - comentou, por comentar, o meu amigo.
- Um pigmeu. Pigmeu legítimo, não é incrível?
Ele ficou meio enjoado. Quase no fim da fila, para disfarçar sua repulsa, perguntou:
- E este?...
- Ah, este é o Genivaldo, meu marido. Oi, amor!
O homem alto, de olhos fundos, estendeu a mão de um jeito mecânico.
- Prazer.
E desceram a escada, os três.
- - -
Silvério M., 41 anos, convida-me para um uísque. Na verdade, quer me mostrar sua coleção de decepções. Poderia começar pela bebida. Falsificada, com certeza.
Mostra a fotografia de um menino de bonezinho, sentado ao volante de um pequeno jipe de lata.
- Parece triste - comento.
- Pois é. Sou eu aos quatro anos. Queria ganhar o jipinho vermelho. Lindo. Meu pai me levou até a loja, tirou a foto, mas não tinha dinheiro para comprar o presente.
Agora vemos um calendário de parede, com a data 12 de janeiro de 1965 assinalada em azul.
- Meu aniversário. Justamente no dia, minha família mudou-se para Porto Alegre. Os amiguinhos ficaram para trás e a festa, três dias depois, não teve a menor graça.
Uma caixa de bombons, antiga, e a fotografia de uma garota.
- Minha primeira paixão. Devolveu os bombons. Tinha medo de engordar e vivia fazendo regimes, soube depois.
Vejo um cartaz e acho graça. O nome do Silvério, a sigla de um partido político e o seu número como candidato a vereador.
- Derrota na eleição?
- Não, não...desisti três meses antes. Preferi a ilusão de que me elegeria.
- Mas então não foi uma...
- Dupla decepção. Hoje sei que não seria eleito, e naquele momento foi covardia.
Uma camisa número 11 da Seleção Brasileira de Futebol, caneta e bloco de papel em branco.
- Esta é das últimas. É o autógrafo do Romário que eu não consegui para o meu filho.
Apanho um livro, capa dura, o título ‘‘Califórnia, Paranᒒ em letras amarelas sobre um azul escuro. Autor: ele mesmo, Silvério M.
- Mas está todo em branco! - surpreendo-me.
- É o livro que não escrevi. Poderia ter virado roteiro de cinema. Eu ficaria famoso. Iria morar em Hollywood, conhecer a Sharon Stone...
- Tudo bem...outra hora a gente continua a conversa.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.
- O cantor e compositor paulista Madan lançou na última terça-feira seu primeiro CD (Dabliú Discos). O show, no Centro Cultural São Paulo, contou com a participação do poeta Haroldo de Campos e dos músicos Kiko Moura, Prata e Jica. Madan esteve recentemente no Paraná acompanhando Ademir Assunção em lançamentos do livro ‘‘A Máquina Peluda’’.
- Outra novidade discográfica: o debochado Joelho de Porco (velhos malucos devem se lembrar bem do grupo) está voltando. A gravadora Movieplay decidiu transformar em CD três discos da banda: ‘‘São Paulo - 1554/hoje’’ (de 1974), ‘‘Saqueando a Cidade’’ (1983) e ‘‘18 Anos sem Sucesso’’ (1989). Tico Perkins, um dos músicos do ‘‘Joelho’’, disse em entrevista ao ‘‘Jornal da Tarde’’ esta semana: ‘‘Em toda a nossa carreira, nunca tivemos contrato com gravadoras. Aos poucos a Movieplay vai ver a besteira que fez.’
- Estou lendo ‘‘Crônicas de Fim do Milênio’’, de Antonio Callado, um presente do amigo Walter Ney, autor de ‘‘Tempos de Infância’’. Callado, além de ser um escritor de ótimo estilo, enxergava a realidade nacional sempre com olhar especial.

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