Noite alta, céu risonho. Acabara de se deitar quando o telefone tocou. Atendeu com o bom humor que a situação exigia:
- Fala!
- Genaro?
- Ele mesmo - mentiu. Chamava-se Ernesto, já andava irritado com os enganos e trotes noturnos e, sabe-se lá porque, desta vez resolveu dar corda ao sujeito do outro lado da linha.
- Está meio rouco?
- Faringite.
- Ah, bom!
- O que tem de bom nisso?
- Calma, Genaro! Fica frio, cara! Estou ligando só para dar um toque.
- Quem ganha pra dar toque é ginecologista e eu não sou mulher grávida. (‘‘Essa foi boa, essa foi boa’’, pensou)
- Pô, Genaro, se não fosse seu amigo deixava você na maior fria.
- Estou tremendo de medo.
- Os caras querem te apagar, Genaro! Se souberem que avisei você, também estou frito.
- Que caras?
- Como assim, que caras? Você não entregou a mercadoria, eles querem arrancar sua pele.
- Pois que venham! Se eu tivesse medo de macho não olhava no espelho! (Tapou o fone e riu).
- Eles já têm o seu endereço...Se manda, cara!...
Breve silêncio e a voz do outro, assustado:
- Genaro...eles estão aqui!...
Ruídos de coisas sendo quebradas, disparos de armas de fogo. Depois, um gemido:
- Aaaah... me pegaram, Genaro!
Ernesto desligou o telefone. Balançou a cabeça e riu. ‘‘Desta vez os filhos da mãe capricharam no trote’’, comentou com o vazio do apartamento.
De repente ouviu passos apressados na escada, gritos no corredor. Bateram violentamente na porta.
- Abre Genaro, tua hora chegou!
- Vamos arrombar!
Só pode ser brincadeira, pensou o Ernesto.
Arrombaram a porta. Uns tipos mal-encarados, tamanho cofre de banco, armados até o bolso dos coletes. E nem usavam coletes.
- É o canalha? - perguntou um sujeito com a cara parecida com um mapa: cheia de rodovias. Os outros dois ficaram olhando para a estátua do Ernesto no meio da sala. Um deles falou:
- Pô, claro que não. Você acha que o Genaro ia usar esta roupa de panaca?
Foram embora sem dizer tchau. E o Ernesto, depois de se refazer do susto, decidiu que compraria um identificador de chamadas e agradeceria sinceramente à mãe pelo pijama ridículo que ganhara no Natal.

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