O enredo era aparentemente simples: ‘‘A Triste Música da Chuva - Drama - Psiquiatra de 35 anos, entediado com o casamento, apaixona-se por enfermeira. Quando a mulher dele, psicóloga, desconfia que algo está errado, é tarde demais. O desfecho é trágico’’. O forte do roteiro, segundo o jovem autor, era a tensão psicológica.
Trabalhou durante três anos no texto, seguindo o paradigma de roteiristas experientes. Apresentação dos personagens principais nas 20 primeiras páginas, pontos de virada, confrontação, etc. Tentou elaborar diálogos afiados e colocou algum suspense na história. Para completar, o final imprevisível, mas não a ponto de irritar o espectador.
Entregou o roteiro ao produtor. O homem gordo e sonolento pegou o calhamaço de papel com algum desprezo, leu três páginas e resmungou alguma coisa. Bom sinal. Normalmente os produtores lêem só a sinopse e nem resmungam.
Na semana seguinte o autor foi chamado ao estúdio. Trabalharia ao lado de outro cara, mais experiente, para ‘‘pequenos ajustes no texto’’. O homem de confiança do produtor sugeriu a primeira mudança:
- Precisamos melhorar esse triângulo amoroso, torná-lo mais apimentado.
- Mas a minha enfermeira é sexy, quente, o sonho de todo espectador masculino convicto e toda espectadora liberada.
- É muito clichê.
- Ela tem um passado: nasceu no interior de Santa Catarina, estudou em São Paulo, foi abandonada pelo noivo, começou a se achar feia, até que...
- Já sei! O psiquiatra se apaixona pela sogra dele!
O jovem roteirista deu um pulo da cadeira:
- Hem? Que sogra? Não tem sogra na minha história.
- Sai a enfermeira e entra a sogra, está resolvido.
- Isso vai complicar tudo! E a sensualidade da personagem?
- A sogra é uma desquitada enxuta.
- Mas tem a cena do milk-shake - argumentou o autor.
- Tudo bem. A sogra tem espírito juvenil. Deixa o milk-shake.
O roteirista acabou cedendo a contragosto. O outro prosseguiu com sua análise:
- A mulher do nosso doutorzinho também não está funcionando.
- Como não? É uma psicóloga inteligente, extremamente dedicada à carreira, que por isso acaba...
- Uma chata. Aqui nós precisamos de uma cantora, uma cantora da noite. Bar mexicano, fumaça, músicos de blues.
- Você está brincando?
- Vamos reescrever. O psiquiatra tem conflitos por causa da profissão da mulher dele, mas não admite.
- Isto é uma bobagem.
- Vai por mim, meu filho. Tenho séculos de experiência nisso.
- Sua mulher é cantora de boate?
- Não. Claro que não. Estou falando de roteiros.
- Sei, sei.
- Psiquiatra atormentado por casamento com cantora da noite, apaixona-se pela sogra. Viu como melhorou?
- Melhorou?
- Claro, filho. Isto é um filme, espetáculo, diversão. Os intelectuais expulsaram o público dos cinemas. O roteiro tem que funcionar, entendeu?
- Tudo bem, respeito sua opinião. No entanto, a estrutura dramática original está sendo prejudicada.
- Ah, foi bom você tocar no assunto. Isso aqui está denso demais.
- Como assim?
O autor experiente caminha até a janela, fuma e vira-se de repente:
- Sabe qual é o grande problema? Seus personagens nunca relaxam. Isto cansa o espectador.
- Mas é um drama!
- Era. Vamos mudar. Dar mais leveza, fazer uma comédia. Talvez um musical.
- O quê? ‘A Triste Música da Chuva’ uma comédia? Só pode ser brincadeira!
- O título vai ser outro. ‘‘Chuva, Suor e Tequila!’’
- E o meu grande final? O psiquiatra mata as duas mulheres! O sangue se misturando com a água que caiu do céu...
- A gente dá um jeito. Talvez um casamento aberto, os três na mesma cama. Não: mostramos o psiquiatra, a sogra e a cantora embarcando em um cruzeiro marítimo, abraçados, ao som do Olodum, com muito confete e serpentina!


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