Um fato do noticiário internacional despertou a minha atenção no início da semana. Querem fechar o mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha, em Moscou. O que este rabiscador de jornal tem a ver com isso? Nothing, nada, nadovsk. Mas não deixa de ser interessante acompanhar a distância o incandescente debate dos russos sobre assunto tão escabroso. A distância e devidamente traduzido pelas agências noticiosas. Sou obrigado a confessar: a única palavra em russo que entendo é ‘‘vodka’’. A que poderia ser a segunda é obviamente híbrida: ‘‘caipiroska’’.
O assessor jurídico da Presidência russa, Mikhail (o cabelo? - perdão, caro leitor, a piada é irresistível) Krasnov, disse que o Kremlin pretende fechar o mausoléu do velho Vladimir como primeiro passo para retirada do corpo embalsamado do líder comunista daquele local. Mas para a maioria dos turistas, ir a Moscou e não ver o Lênin morto é como ir a Roma e não ver o Papa. Vivo, é claro.
Mesmo os capitalistas norte-americanos, quando vão à capital russa, não deixam de visitar o mausoléu de Lênin e o Mc’Donalds. Nem sempre necessariamente nesta ordem.
O governo acha que a presença da múmia no centro de Moscou é inconstitucional. Por isso quer enterrá-la. Não sei exatamente o que diz a constituição russa. Parece estranho, mas se estão falando, deve estar escrito em algum dos artigos que é proibido expor publicamente corpo embalsamado de líderes comunistas.
O presidente Boris Ieltsin já propôs até de um plebiscito para decidir o destino da múmia. Seus opositores no parlamento ficaram furiosos. Consideram a proposta desrespeitosa. Quem poderia dizer o que gostaria que fizessem com a sua carcaça depois que o espírito se foi seria o próprio Lênin. Acho que não disse nada até hoje. Aliás, como todo bom materialista, Lênin nem acreditava que o espírito dele um dia se fosse, porque espírito é coisa que não existe.
Particularmente, não sei se é uma boa idéia acabar com mausoléus, templos e monumentos como forma de apagar o passado. Parte do Coliseu está em Roma até hoje e, mesmo para os cristãos, tem seu valor histórico. E as pirâmides, grandes atrações turísticas do Egito, não eram apenas mausoléus de faraós? O governo e os neoliberais russos poderiam relaxar e faturar ainda mais com o turismo. Claro que isto também é cruel com a memória do velho camarada. Mas, como já se diz nas ruas de Moscou, ‘‘businevsk is businevsk’’ (ou algo assim).
Mais séria é a situação dos brasileiros. Também li nos jornais da semana: Fernando Collor de Mello já sonha com o retorno ao poder. Aliados do ex-presidente ‘‘impichado’’ lançaram campanha de marketing para recuperar a imagem dele. A idéia é ir aumentando gradativamente suas aparições na mídia nacional até 2002, quando finalmente poderá retornar à vida pública e deixar o ostracismo da privada em que se encontra. O único problema, ao que parece, está sendo conseguir um bom caixa-de-campanha.
E os russos lá, se preocupando com um sujeito que, anjo ou demônio, jamais se levantará do seu esquife...


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