Nelson Capucho
Conheceram-se através da Internet. Frequentavam aquelas salas de bate-papo, espécie de disque-amizade só para alfabetizados. Combinaram: toda quinta-feira, no mesmo horário, trocariam mensagens. Logo a conversa tornou-se diária. Usavam codinomes. Ele, Romeu; ela, Isolda. E como no anonimato da rede mundial de computadores o que vale é a fantasia, Isolda mentia para o Romeu. Mentia sobre a idade, a profissão, a experiência sexual.
Amor é sinceridade? Espontaneidade? Mas quem está falando em amor? Romance virtual é outra coisa.
As frases dela eram calculadas, algumas roubadas do Drummond, do Pessoa, do Prevert. Um roubo, digamos assim, publicitário. Pegava a essência de um poema e adaptava, mudava algumas palavras, a ordem dos versos. Às vezes dava um trabalho danado.
Romeu pediu o telefone de Isolda. Ela fez charme durante 15 dias. Depois admitiu revelar, desde que o Romeu desse o número dele antes.
Dez dias depois, ele cedeu. Telefone ao lado do computador, ela discou imediatamente. Caiu num açougue. Isolda ficou furiosa. Ele contra-atacou: o combinado era trocarem os números no ato. Só queria ter certeza de que ela cumpriria a parte dela, o que infelizmente não aconteceu. Não poderia confiar em uma mulher assim, ora bolas!
Ficaram sem se falar durante três dias. Depois retomaram o diálogo, agora mais aquecido. Desistiram daquela história do telefone. Estava legal assim.
Mas aí ele cismou que chegara a hora de conhecer Isolda pessoalmente. Ela ficou apavorada. Romeu era jovem, rico, bonitão (?), bem-humorado, conhecia quase o mundo todo, praticava mergulho. Enfim, um príncipe submarino. E ela, coitada, era o quê? Uma garotinha tímida às vésperas do vestibular. Por que foi inventar aquelas maluquices todas: artista de teatro (uma amiga disse que isso pegava bem), muitos namorados, adorava curtir a noite e ouvir rock dos anos 70...
Logicamente havia outra possibilidade, não menos assustadora. E se ele também mentira desde o início e fosse exatamente o oposto disso tudo? Em vez de príncipe submarino, um anfíbio de apartamento? Ah, dona Isolda, está na hora de caíres fora dessa, pensou.
Ela passou a evitar o computador. Sabia que, se apertasse aquele botãozinho vermelho, entraria na rede, iria procurar a velha sala e não resistiria ao charme do Romeu. Toda vez que sentia vontade de Internet, comia um chocolate ou tomava um banho frio. Engordou e pegou um resfriado. Mas aguentou firme.
Romeu, na verdade um vendedor de seguros, descasado, mais ou menos 50 anos, agora está flertando com Julieta, vestibulanda, tímida, odeia bares e rock dos anos 70. Se é que ela não está mentindo descaradamente, é claro.SOCIAL
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