Nelson Capucho
Dizem que o Roberval é um cara legal, mas meio indeciso. Ele nunca deu muita importância para os comentários.
- Vi tanta gente precipitada se ferrar na vida.... Prefiro pesar adequadamente as atitudes para não me arrepender depois. Que diabo tem de mal nisso? - justificava-se.
Certa manhã de outono...
O despertador tocou às 7h30, impondo ao Roberval uma questão cruel: erguer-se, lépido como um soldado espartano, ou dormir um pouquinho, só um pouquinhozinho mais? Espichou-se para fora do cobertor como uma tartaruga. O corpo querendo ficar, a cabeça ameaçando ir sozinha ao trabalho.
Tinha de estar no escritório às 8h30. Fez as contas: nove minutos de banho, seis para botar uma roupa, mais quatro para engolir alguma coisa, outros 16 de percurso. Tudo bem, poderia dormir 25 minutos que a situação continuaria sob controle. Programou novamente o relógio.
Não. Melhor levantar-se agora e fazer as coisas sem afobação, pensou. Com algum esforço, rolou de lado. Calçaria os chinelos ou iria descalço até o banheiro? Aliás, a qual banheiro? O da suíte ou o social? O primeiro estava mais perto, mas a prazerosa ducha do segundo poderia compensar a caminhada. E o apartamento nem era tão grande assim. Ficou sentado na cama com o olhar parado. Viu uma formiga andando sem rumo na parede do quarto.
Logo, outras dúvidas começaram a despencar de um céu de chumbo, como se quisessem aniquilá-lo. Roberval resistiria heroicamente. Afinal, era um homem ou uma formiga?
Um homem, claro. Homem equilibrado, mas homem. Ou seria uma formiga? Não quis se atormentar mais com esta questão filosófica. Tinha problemas concretos, como aquele que o esperava no armário. Blusa de lã ou blazer? Outono é sempre uma estação complicada. Qual calça combinaria com a camisa que ainda teria de escolher? Escovaria os dentes antes ou depois do banho? Usaria o shampoo anti-caspa ou o normal? Perfume ou colônia? Nenhum dos dois, talvez. Afinal, já haveria a loção after shave.
Mas valeria a pena fazer a barba? Barbeador elétrico ou lâmina? Tomaria chá ou café? Chocolate, quem sabe. Comeria brioches? O desejo ou o regime? Oh, inferno, inferno...
O despertador gritou. Passaram-se os 25 minutos e o Roberval ali, sentado na cama. Agora não havia saída: precisava mesmo ir tomar banho. Só então lembrou-se da mulher, que fora visitar parentes em Botucatu. Prometeu telefonar para ela logo cedo. Ligaria agora mesmo. Ou depois do desjejum. Agora ou depois do desjejum, meu Deus?
Exausto, Roberval voltou a dormir.
Arquivo FolhaINGRATIDÃO
Está certo, eu acredito na lei da reciprocidade. Embora nunca tenha ouvido falar de alguém que mandou um presente para o Papai-Noel.
O PREÇO
Duzentos mil reais pelo voto de um deputado? E depois o governo diz que não há inflação.
SUPEREGO
De vez em quando aparece um maluco disposto a acabar sozinho com o Planeta. Detesto estes tipos megalomaníacos e egoístas. Será que eles não percebem que isto é um trabalho de equipe e que nós já estamos fazendo a nossa parte?
TEORIA
Brasília, na prática, é outra coisa.
CIÊNCIA
Quase todas as grandes descobertas científicas são acidentais. Mas isto não significa que um sujeito que saia por aí provocando acidentes esteja a serviço da ciência.
TOKSTOKSTOKSTOKSTOKSTOKSTOKSTOKS
- Ainda dá tempo de conferir a exposição de ilustrações de livros criadas por Poty. Nem precisava dizer: o homem é fera! Até o próximo dia 8, no Museu de Arte do Paraná, em Curitiba.
- Vai ser difícil ficar em casa no fim de semana em Londrina. Festival Internacional de Teatro a mil. Para todos os gostos. Veja a programação de hoje na página 4.
- Pra quem vibra com bola na rede: Flávio Campos, companheiro de Folha, apresenta diariamente na TV Mix-Londrina (Canal 7 na TV a cabo) o programa Linha de Passe. Com direito a cartoon animado de Ivo Akio.





