Al Abeb era o nome do rapaz. Morava em Pra Lá de Marrakesh e não tinha profissão. Desde a infância foi, digamos assim, um inadaptado. Queria fazer alguma coisa, ganhar seu próprio dinheiro, ficar rico, comprar muitos camelos e namorar a filha do sultão. Mas não tinha aptidão para o trabalho.
Pra Lá de Marakesh era uma cidadezinha próspera. Havia os que fabricavam tapetes, como o pai de Al Abeb, e os que vendiam tapetes, como o tio de Al Abeb. Ambos profissionais tinham certo ‘‘status’’.
Para Al Abeb, era pouco. Ele sonhava com a filha do sultão. Amava aquela mulher como o Marcelinho Carioca ama a bola de futebol e a Hebe Camargo ama um colar de pérolas. Talvez a paixão chegasse ao nível daquelas que envolvem um nerd e seu computador.
Não conseguiria viver sem aquela mulher. Mas como chegar lá? Precisava de grana. Muita grana.
- Não tenho paciência para tecer - queixava-se.
O pai:
- Tudo bem que você não queira seguir a minha honrosa profissão. Mas o que me diz do comércio? Qualquer um da nossa família pode ser bom nisso. Está no nosso sangue!
- Fui submetido a alguma transfusão quando era pequeno?
- Foi. Recebeu sangue de uma besta - irritou-se o pai.
A mãe:
- Pobre Abeb! Pobre Abeb!
- - -
Uma qualidade a família tinha de admitir no rapaz: o dom da oratória. Era capaz de falar horas e horas sobre tapetes. Parecia ter facilidade para detectar defeitos na tapeçaria alheia. Mas não conseguia tecer uma só peça.
Os moradores de Pra Lá de Marrakesh logo descobriram que Al Abeb não passava de um entendedor ‘‘da boca pra fora’’. E ninguém mais tolerava os seus palpites.
- Você já teceu algum tapete, meu jovem? - questionou Ibrahim, dono de loja tradicional.
- Ainda não, admito. O senhor, porém, há de considerar que nunca fabricou um camelo, mas sabe quando está diante de um animal preguiçoso.
O velho mercador coçou a cabeça. E completou, filosoficamente:
- Talvez você tenha razão. Eu também jamais fui domador de serpentes, mas sei reconhecer uma espécie perigosa assim que a vejo.
- - -
Desprezado, Al Abeb decidiu inventar uma profissão: puxador de tapetes. Treinava em casa mesmo. Aprendeu os movimentos exatos, imitando os gestos dos mágicos. Logo se tornou o melhor puxador de tapetes de Pra Lá de Marrakesh. Mas eram poucos os clientes na cidadezinha. Mudou-se para a Capital, onde havia mais e maiores tapetes. Sua fama espalhou-se pelo país. Era requisitado por autoridades. Sentia-se muito bem convivendo com o poder. Um dia o sultão de Pra Lá de Marrakesh o convidou para ‘‘um servicinho especial’’.
Enfim, a chance que Al Abeb esperava. Ficaria frente a frente com a sua musa. Vestiu a roupa mais cara e o turbante mais reluzente. O próprio sultão o apresentou à filha:
- Eis o maior puxador de tapetes do mundo.
A moça conteve um bocejo atrás do véu delicado.
- Meus olhos talvez não mereçam ver tanta beleza - galanteou.
Quando o sultão os deixou a sós, ele confessou sua paixão.
- Sinto muito, Abeb. Meu coração já tem dono - disse a moça.
Ele ficou vermelho:
- Quem é este felizardo, se é que não se trata de um deus?
- Adib, o filho do velho Ibrahim.
- Mas...mas aquele sujeito é um duro! Eu sou rico, famoso e apaixonado.
- Tolinho. Adib tem tesouro muito maior em seu coração.
Por esta Al Abeb não esperava. Sua história não passava de um clichê. Era o fim.



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