Nelson Capucho
Angela e Sandra tinham algo em comum: Marcelo, o ex-marido. Em conversa com terceiros, as duas se referiam a ele assim: O meu ex.
O meu ex falou isso, o meu ex fez aquilo - com algum desdém sutil na pronúncia, naturalmente.
Mas só entre elas, Angela, a primeira, dizia: o Marcelo Roberto; e Sandra, a segunda: o Marcelinho.
Na juventude, tinham sido grandes amigas - se é que mulher tem mesmo alguma grande amiga. Estudaram juntas no colégio e na faculdade. Marcelo casou-se com a Angela. Era um sujeito meio influenciável: de tanto a Angela elogiar a Sandra, resolveu trocar de mulher. Houve o constrangimento, o ódio, o luto, a resignação e, por fim, Angela achou mais civilizado reaproximar-se da ex-amiga. Mesmo porque, a outra havia acabado de ser trocada por Maria Luiza, loira de capa da Playboy, segundo amigos do Marcelo, e uma branquela burra feito uma porta, na opinião das duas.
Angela e Sandra combinaram um chopinho para o fim da tarde. E se encontraram no bar:
- Que coisa, Sandra!
- Pois é, amiga, casamento é como banheiro público. Sempre tem alguém querendo sair e alguém querendo entrar.
- O Marcelo Roberto ter se apaixonado por você, naquele momento das nossas vidas, eu até compreendo. Mas agora, com essa Maria Luiza...Ele pirou de vez, menina!
Pediram dois chopes.
- Olha, Angela, acho que o Marcelinho sempre foi meio louco, se você quer saber.
- É, tinha umas coisas esquisitas.
- Se tinha.
- Não sei se acontecia isso quando vivia com você, mas aos domingos, o Marcelo Roberto espalhava aquele monte de jornais na sala e ficava rolando lá no meio...
- Com a TV ligada no aspirantes do São Bento e XV de Piracicaba...
- E o som...o Marcelinho via futebol na TV e ouvia Beethoven ao mesmo tempo...
- Fumando um Hollywood atrás do outro.
- Hollywood? Não, não...comigo ele só fumava Free.
- Deve ter mudado de cigarro. Não mudou o corte de cabelo quando se casou com você?
- Mas ficou melhor, né?
- Pra mim, ele só piorou, aquele canalha.
- Concordo com a segunda parte, o adjetivo. Ou seria substantivo? Enfim, concordo com o canalha.
Mais dois chopes. Angela:
- Se o Marcelo Roberto fizesse a terapia das vidas passadas ia descobrir que na outra encarnação foi um cachorro.
- Qual o quê, a gente não repete o papel em duas encarnações diferentes.
- Essa é boa.
Estavam começando a se divertir, o veneno a escorrer no canto das bocas. Eis que, sacanagem do destino, quem entra no bar? Exatamente. A branquela burra, de vestido preto justíssimo, salto alto, cabelos soltos e reluzentes. E o cachorro do Marcelo Roberto (também conhecido por Marcelinho), de rabo-de-cavalo, traje esporte fino, fumando charuto.
Angela olhou para Sandra, Sandra olhou para Angela. As duas balançaram a cabeça. Nem precisaram falar nada: só piorou, aquele canalha!
CULPA





