O general era um homem sisudo, como aliás convém a todo general. Estava na reserva há alguns anos, é verdade, mas não pensem que é fácil deixar de ser general. Há relatos - embora não comprovados cientificamente - de alguns militares que só conseguiram relaxar após sete ou oito anos de aposentadoria, com o perdão da palavra. Já o nosso personagem jamais liberou seu lado clown, a porção macaco, digamos assim, que todo homem herda com a carga genética.
Acordava cedo, o general. Por volta das 5 horas pulava da cama, fazia ginástica e tomava banho com água fria, hábitos de caserna que nunca abandonou.
- Banho quente é coisa de maricas - dizia.
Naquele dia não foi diferente.
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Ele vestia o pijama com desenhos de ursinhos, presente de um dos netos (detestou a princípio, mas decidiu usar para não desapontar o menino) e se sentia leve e bem disposto depois do banho. Abriu a porta da cozinha, que dava para um amplo quintal, onde havia árvores frutíferas, pequena horta e jardim, com maravilhosas hortênsias. Saiu para alimentar o curió, que ficava em uma gaiola no alto da parede de fundo da casa.
Foi aí que percebeu algo estranho em sua propriedade: três ou quatro barracas de plástico escuro tinham sido armadas no quintal.
- Só pode ser brincadeira. Os gaiatos do batalhão devem estar me aprontando alguma - pensou.
Por via das dúvidas, entrou em casa, foi até a cômoda e apanhou a sua pistola 45. O dia começava a clarear. Quando voltou, engoliu seco:
- Mas o que é aquilo ?
Avistou uma bandeira vermelha hasteada em um mastro ao lado das barracas. Deu dois tiros para cima. Das barracas começaram a surgir tipos que não tinham nada de soldados. Uns sujeitos negros e pardos de roupas sujas, outros barbudos de chapéu de palha, mulheres de olhos tristes, algumas crianças descalças e sonolentas.
- Qual é a piada ? - esbravejou o general.
Um dos barbudos deu um passo adiante:
- Não é piada, general. Estamos ocupando a área improdutiva do terreno.
- Improdutivo é o seu cérebro, animal!
- O senhor por favor mantenha a compostura. Nós estamos aqui pacificamente.
Os olhos do general pareciam ter a cor da bandeira dos sem-terra.
- Eu sou um militar, seus comunas de uma figa! Comigo não! Saiam já daqui ou acabo com a raça de vocês! - berrou e disparou a arma novamente, desta vez com o cano mais baixo. Os projeteis acertaram uma bacia enferrujada, que refletia timidamente os primeiros raios de sol.
Os invasores não se abalaram. Uma mulher falou, firme:
- A gente precisa de terra para plantar, senão o senhor, seus filhos, seus netos vão todos morrer de fome.
- Não é possível que isto esteja acontecendo - racionalizou o militar da reserva.
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Homens, mulheres e crianças avançaram em semicírculo na direção do general. Gritavam em coro:
- Terra! Terra! Terra!
- Eu vou atirar! Eu vou atirar!
Puxou o gatilho.
- Terra! Terra! Terra!...
Desta vez a arma não funcionou. Estava cercado, espremido, sufocado. Um dos homens espetou a barriga do general com o dedo de unha suja.
- Eu mato! Eu mato vocês seus comunistas! - Queria gritar, a voz saía fraquinha, fraquinha.
- General!
Era a mulher dele chamando.
- Hem? O quê?
Ela espetava a barriga do marido com o dedo de unha esmaltada. O esmalte tinha a cor da bandeira.
- No meu quintal não... - ainda resmungou, meio acordado. Percebeu o ridículo: estava na cama, luzes acesas, a mulher preocupada. Noite ainda.
- Você estava tendo um pesadelo.
- Deus do céu, que coisa horrível - disse o general, enxugando o suor da testa com a manga do pijama de ursinhos.
- O que o deixou tão atormentado, meu bem?
- Os sem-terra, um monte deles, invadiram a nossa propriedade, pisaram no meu jardim, armaram aquelas barracas horríveis... e a bandeira, tiveram coragem de hastear a bandeira comunista no meu quintal!
- Quintal? Que quintal? Acorda, homem: a gente mora em um apartamento no quinto andar!
- Isto não interessa. Eles não têm o direito de invadir o quintal do meu sonho deste jeito, ora bolas!
A mulher voltou a dormir. E o general ficou lá, sentado à beira da cama, emburrado.


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