A mulher entra no táxi. O motorista é velho conhecido da família. Trocam o cumprimento habitual. Ela diz aonde pretende ir e acomoda-se no banco traseiro. O homem engrena a primeira marcha, acelera o carro e abre o diálogo.
- E como vai o Alfredo?
- Imagino que esteja bem, aquele canalha!
- Como assim?
- A gente se separou, seo Antônio.
O motorista dá uma freada no carro:
- Não me diga... - Ele parece sinceramente chocado.
- Está tudo bem. Na verdade não foi nenhuma tragédia. Pelo contrário. Minha vida era um inferno. Nem te conto (sempre encaixava a frase nas suas falas). Brigávamos muito, o senhor sabe. Ele chegou até a me agredir.
- Nossa, que horrível!
- Há males que vêm pra bem, seo Antônio. Por causa da agressão tive de procurar um ortopedista. O médico era um gato, gentilíssimo...Nos apaixonamos.
- Que coisa! Então acabou sendo bom para a senhora. - Ele comenta, com um sorriso condescendente.
- Bom nada. Nem te conto. Depois de uma semana, descobri que o filho da mãe era casado.
- É...aí fica complicado - O táxi pára num sinal vermelho.
- Terminei o caso imediatamente quando soube da história. Mas nem te conto. O senhor acredita que eu e a mulher dele fomos colegas de faculdade? Não é uma incrível coincidência?
- Terrível coincidência, eu diria. - O táxi enrosca-se em um congestionamento.
- Não, seo Antônio. Foi bom saber disso. Como fiquei chateada com o ocorrido, resolvi telefonar para a Angela. A minha amiga se chama Angela, mas não posso dizer o sobrenome, o senhor compreende, né?
- Perfeitamente. - O motorista franze a testa.
- Pois não é que a Angela estava abrindo uma loja, convidou-me para ser sócia dela e viajamos juntas para fazer compras em Miami. Ah, meu Deus, nem te conto.
A mulher curva-se para a frente e baixa o tom de voz como se fosse fazer uma grande confidência:
- Foi a minha primeira viagem internacional.
- Puxa, que maravilha! - Diz o taxista, livre do trânsito da área central.
- É, tinha tudo mesmo para ser uma maravilha.
- E o que aconteceu?
- Chegamos - Ela aponta um prédio com o queixo.
Ele estaciona o carro. A mulher confere o preço no taxímetro, paga, deposita o troco na bolsa.
- Tchau, seo Antônio!
Ela se afasta. Tem a ligeira impressão de que ouviu o motorista dizer alguma frase abafada, além do ‘‘até logo’’. Deve ser o resmungo comum de velhos taxistas - pensa. E entra apressada no prédio.











TOADA DE OUTONO
É outono! É outono! - repete em seu trinado, o pássaro imaginário que fugiu do antigo dono. A ave suave pousa no braço da sexy árvore.
É outono! É outono! - ensaia o coro de cigarras acesas.
É outono! É outono! - resmunga a fiel diarista a varrer as folhas que se repetem e se repetem e se repetem...como o canto do pássaro.

NOVA ORDEM

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