Pulou da cama assustado:
- Meu Deus, que diabo está acontecendo?
Era um barulho infernal. Olhou o relógio: 7h01.
- Putzgrila! No meio da madrugada...
Repetia-se a curtos intervalos aquele ruído metálico, dolorido, remetendo a terríveis recordações sonoras, como o motorzinho do consultório do dentista. E pior: amplificado em milhões de watts.
Músico, trabalhava em um restaurante até por volta da meia-noite. Como sofria de insônia, costumava tomar algumas cervejas depois do serviço. Só para relaxar - justificava, como todo candidato ao vício. E logo hoje, que a cabeça estava pesando uma tonelada e meia, era castigado pela serra elétrica da construção ao lado do seu apartamento.
Mudara-se há pouco tempo para o bairro. Tapou os ouvidos e lembrou-se da corretora que o convencera a comprar o imóvel.
- Se é sossegado? O único risco aqui é o senhor morrer de tédio. Eu particularmente tenho horror a lugares tão quietos. Passarinhos cantando ao cair da tarde, silêncio de zona rural todas as manhãs, sabe como é? Eu não gosto. Meu sonho é morar na Quinta Avenida em Nova York.
Vai conseguir logo - pensava agora, irritado. Lembrou-se de outra pergunta que fez à mulher:
- Aquilo não é uma obra?
E ela, fingindo não ter ouvido:
- O senhor está vendo aquele flamboyant à esquerda? Logo estará florido. Uma vista linda de morrer!
Panaca. Eu sou um panaca - disse para si mesmo, trincando os dentes de raiva.
De repente, o silêncio.
Que maravilha! Riu sozinho, feito um panaca. Juntou as mãos em oração e olhou na direção do teto, como se o céu estivesse instalado no quarto andar. Voltou para a cama. Mas bastou esticar-se no colchão, a violenta sinfonia recomeçou. Cobriu a cabeça com dois travesseiros. Não adiantou.
Foi à sacada e observou os responsáveis pela crueldade. Três deles, com seus capacetes azuis e roupas surradas, rodeavam o instrumento de tortura. Sentiu vontade de berrar uns palavrões. Não, não seria justo: os caras estavam apenas trabalhando. Mas se tivesse em casa um rifle com silenciador e mira telescópica...Claro, era só uma fantasia cinematográfica. Seres civilizados resolvem situações limites com a Lei.
-Ah-rá! Uma luz!
O Código de Posturas do Município, a Lei do Silêncio, a Lei da Gravidade, a Lei Sarney...alguma lei deveria salvá-lo daquele martírio. Telefonou para a Prefeitura:
- Como? Tem certeza de que não existe nada?
- A partir das sete da manhã, companheiro, tudo liberado.
- Não é possível.
- São quantos decibéis mesmo?
- Milhões, trilhões, sei lá.
- Olha, talvez isso possa ajudá-lo: há um projeto na Câmara que prevê liberação do uso da serra elétrica em construções apenas a partir das 9 horas. Lógico que precisa entrar em pauta, depois tem a primeira votação, a segunda...
- Deixa pra lá...Só mais uma coisa: há alguma lei proibindo o uso de dinamite na área urbana? - Fez a piada raivosa e bateu o telefone.
Colocou algodão nos ouvidos. Fechou todas as janelas, as persianas, as cortinas. Ligou o aparelho de som. Mozart não combinava com o concerto dos operários.
Era como se o seu crânio fosse o Titanic e o barulho, a água enfurecida entrando por todos os lados. Resolveu sair de casa. Àquela altura, não havia mais alternativas. Achou melhor andar a esmo até encontrar um lugar tranquilo.
Os amigos estão achando o comportamento dele meio esquisito. Dorme cedo e todos os dias, às sete em ponto, começa a correr no Zerão. Vai acabar se tornando um atleta, comentam, com o sarcasmo habitual.






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