Nelson Capucho
Morreu de Tanto Viver
Poetas e escritores norte-paranaenses relembram a influência direta que Leminski exerceu sobre eles
Início dos anos 80, uma casa de madeira, simples e aconchegante, no bairro do Pilarzinho, em Curitiba. A fama de pessoa difícil do ex-judoca Paulo Leminski derreteu-se logo no primeiro contato. Tivemos então uma longa e animada conversa, da qual participaram a escritora Rosana Bond e a jornalista Marcia Marques, que gentilmente haviam se encarregado de apresentar-me ao poeta. Durante o tempo todo, contamos com a presença suave de Alice Ruiz, que já se revelara uma poeta maravilhosa, mas ainda não havia sido editada nacionalmente como o companheiro.
Leminski presenteou-me com o alucinante Catatau (Edição do autor) e sugeriu que fôssemos até um barzinho, distante três ou quatro quadras da casa, buscar algumas cervejas. Percebi certa desaprovação no olhar de Alice, mas, enfim, estávamos com as gargantas secas, que mal haveria nisso? Havia. Melhor morrer de vodca do que de tédio era um dos versos preferidos do poeta. Enquanto o dono do boteco providenciava as cervejas, tomamos duas doses de alguma bebida destilada.
Empolgado, criticou os artistas e produtores culturais que ficavam esperando patrocínio de órgãos oficiais para mostrar seus trabalhos: Se a Tropicália tivesse ficado esperando financiamento oficial, não teria acontecido nada até hoje.
Alguns meses antes deste nosso encontro, Caetano Veloso havia estado naquela mesma casa do Pilarzinho à procura do poeta. O cantor e compositor baiano gravou a música Verdura, dando o impulso que faltava para que o poeta curitibano fosse descoberto pela moçada de todo o País.
Antes disso, a obra de Leminski já havia causado um impacto muito favorável no Norte do Estado. Leminski sempre foi meu poeta preferido e com o tempo tornou-se também uma referência de vida pra mim, pela fineza com que unia alta e contracultura,
pelo suingue como polemista, pelo mergulho visceral na existência, diz o jornalista, cantor e compositor londrinense Bernardo Pellegrini.
Os jovens poetas e tradutores londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça fizeram questão de conhecer Leminski pessoalmente. Nilson Monteiro (que acabaria mudando-se para Curitiba) e Ademir Assunção (que trocaria Londrina por São Paulo) também tinham boas relações com o poeta. Até mesmo Domingos Pellegrini, contista respeitado nacionalmente desde os anos 70, encarregava-se de divulgar as edições caseiras dos livros do casal Paulo e Alice.
O autor de Simples, Nilson Monteiro, recorda-se da instigante influência de Leminski: Ele era uma bússola e ao mesmo tempo um grande provocador, que nos obrigava à criação, de forma múltipla e plural. Monteiro revela que às vezes divergia de Leminski, mas garante que as brigas eram sempre estimulantes e resultavam em efervescência literária.
Leminski resumiu na sua poesia de síntese o que pensávamos e como vivíamos, com soluções que o colocam entre os grandes da língua, ao lado de nomes como Noel ou Pessoa, comenta Bernardo Pellegrini, que gravou a música Filho de Santa Maria (parceira Leminski-Itamar Assumpção) no CD Quero o Seu Endereço.
Acho que em Londrina sempre mantivemos um diálogo criativo com a obra/pessoa dele. Quando cheguei em São Paulo, ele tinha acabado de deixar o quarto onde fui morar em 1977, na Vila Madalena, na casa de uns amigos concretistas. Sua ausência era poderosa, prossegue Bernardo Pellegrini. Quando o poeta curitibano morreu, Bernardo, que editava o caderno de cultura da Folha de Londrina, revela: Depois de chorar convulsivamente pela primeira vez na vida, fiz a melhor manchete de meus anos de jornal: Morreu de Tanto Viver.





