Nelson Capucho
Nelson Capucho
A vida ao avesso
Como fazia toda manhã antes de ir para o trabalho, o Fagundes estava concentrado na leitura do jornal. A mulher dele preparava o desjejum.
- Só faltava essa! - ele comentou em voz alta.
A mulher não deu importância. O Fagundes não conseguia ler o jornal em silêncio, era hábito antigo.
- Isso é um absurdo! - bufou.
Interrompeu a leitura, correu a mão espalmada sobre o rosto, de cima para baixo. Ficou olhando para a mulher. Ela percebeu que algo sério poderia estar acontecendo, o marido parecia meio pálido. Ai meu Deus, o coração! - pensou. E devolveu à geladeira o bacon que pretendia misturar à omelete.
- Não está se sentindo bem, querido?
- Você também vai se sentir mal. Olha só o que está escrito aqui no jornal...
- Morreu alguém que a gente conhece? Algum parente?
- O FMI, mulher!
- Quem?
- O FMI proibiu qualquer brasileiro de usar camisa amarela!
- Mas você nem gosta de camisa amarela.
- Agora estão passando dos limites! Já não bastava essa crise infernal, essa corda no pescoço do País o tempo todo e agora isso. É uma ingerência inadmissível!
- Ih, amor, você precisa parar de se preocupar com estas bobagens de política, economia, governo. Isso não dá camisa para ninguém. Toma aí o seu café e relaxa, vai.
- Não quero café, não quero nada. Perdi o apetite.
Saiu batendo a porta, resmungando Um absurdo! Um absurdo! A mulher balançou a cabeça em silêncio, sentindo pena do marido.
Na hora do almoço, o Fagundes telefonou. Ficaria no escritório, comeria um lanche por lá mesmo. O ambiente estava tumultuado, a cidade agitada.
- Não fica nervoso, Fagundes. Olha o seu coração, pelo amor de Deus! - a mulher recomendou.
- Prenderam o Souza, você acredita numa loucura dessas?
- O Souza? Mas por quê? - a mulher conhecia o companheiro de trabalho do marido.
- Saiu de casa com uma camisa amarela. Quer dizer, ele achou que era verde-limão, mas os fiscais do FMI interpretaram de maneira diferente.
- Também acho verde-limão de mau gosto, mas daí a prenderem alguém só por causa disso é realmente um exagero.
- E o pior é que vem mais coisa por aí.
- Mais? Não é possível. Você está me deixando assustada.
- O governo vai anunciar um pacote de medidas hoje à tarde. São condições do FMI para emprestar algum dinheiro ao País.
- Ai, Fagundes, estou nervosa. Vê se vem cedo para casa, por favor.
- Não sei se vou jantar, não. Dependendo das medidas...
- Você acha que eles vão proibir os maridos de jantar em casa?
- Não, isso não. Mas pelo que estão dizendo, a gente só vai poder andar nas ruas plantando bananeira, com duas cenouras enfiadas nos ouvidos.
DRUMMONDIANA
e agora, maurício?
seu brilho
seu vício
seu telefone celular
seu mitsubishi eclipse
seus cds importados
suas calças de griffe
miami não há mais
maurício, pra onde?
(Do livro Vida Vadia)





