Seo Ambrósio foi uma figuraça. Mais jovem de nove irmãos, nasceu em Ohio, Estados Unidos, em 1842 e morreu em 1914. Segundo a orelha de um de seus livros editados no Brasil, passou a infância num meio quase sórdido (não sei exatamente o que o resenhista quis dizer com isto, já que o mundo todo me parece mais ou menos sórdido), ‘‘de onde surgiram-lhe frustrações e traumas que marcaram grande parte de sua obra’’.
Quando vi seu nome - Ambrose Bierce - impresso pela primeira vez, eu ainda era moleque. Foi num daqueles livros de citações, encadernado com capa vermelha, que descobri na estante de meus pais. Por algum motivo, além da minha total ignorância com relação à língua de Shakespeare, Hemingway e Bill Clinton, imaginei que se tratava de uma mulher. Talvez porque Ambrose me lembrasse dona Ambrósia, uma vizinha. Só alguns anos mais tarde viria a ler uma pequena biografia de Mr. Ambrose Gwinnett Bierce que esclareceria definitivamente a questão. A partir de então passei a chamá-lo de seo Ambrósio.
Fiquei sabendo que o escritor, na juventude, lutara na Guerra da Secessão (1861-1865), experiência que de acordo com interpretação de alguns críticos teria reforçado seu ‘‘insondável pessimismo’’. Logo após a guerra, Bierce dividiu seu tempo entre um emprego na Casa da Moeda em São Francisco e a colaboração com alguns jornais. Tornou-se um dos principais redatores do ‘‘The News Letter’’. Casou-se com a bela Mary Ellen Day e mudou-se para Londres em 1871. Na Inglaterra, fez sucesso escrevendo em jornais e ganhou o apelido de ‘‘Bitter Bierce’’ (Amargo Bierce).
Os poucos textos de seo Ambrósio que conheço nunca me pareceram descaradamente amargurados. São críticos, satíricos, resvalando às vezes no humor plúmbeo. Escreveu um ‘‘Dicionário do Cínico’’, gostava de recriar fábulas de maneira anárquica e de produzir histórias curtas, de moral sutil (em alguns casos, nem tanto) como esta:
‘‘Convocado para fazer parte de um júri, Destacado Cidadão enviou atestado médico justificando que sofria de amolecimento dos miolos.
‘‘Decidiu o juiz, devolvendo o atestado:
- O cavalheiro está dispensado, pois tem miolos.’’ (‘‘O Talism㒒, de ‘‘Fábulas Fantásticas’’)
Quando retornou aos Estados Unidos, em 1876, Bierce enfrentava problemas de saúde, devido a incômodos ataques de asma. Em 1899, seu filho mais velho foi assassinado durante uma briga. O segundo filho também morreu, vítima de alcoolismo. O casamento com Mary Ellen, pontilhado por conflitos, acabou. Mas seo Ambrósio, em vez de se entregar a lamentações, partiu para o México e integrou-se às milícias do revolucionário Pancho Villa. Nunca mais deu notícias. Acredita-se que tenha morrido em terras mexicanas.
Por que fui me recordar do ‘‘Amargo Bierce’’ logo agora? Provavelmente a lembrança tenha algo ver com esta nuvem de ‘‘insondável pessimismo’’ que os megacapitalistas - ditadores do fim do século - insistem em manter sobre a cabeça dos chamados países emergentes!
Tudo bem, tudo bem. Já anotei na agenda: melhorar o senso de humor no final de semana.

mockup