Nelson Capucho
É uma velha piada de editores norte-americanos, certamente relembrada a cada ano, quando eles - ávidos pelo principal best seller da temporada - começam a montar o catálogo de lançamentos. Livros sobre o ex-presidente Lincoln sempre são bem vendidos; livros a respeito de médicos também têm boa saída; e, finalmente, há grande interesse por livros que falem de cachorros. Logo, O Cachorro do Médico de Lincoln seria um sucesso garantido.
Sentado diante do computador, ele estava pensando justamente nesta brincadeira mencionada por Olivia Goldsmith em Best Seller - O Romance (Ed. Record). Era um jovem escritor, com 32 histórias inacabadas - algumas, na verdade, mal começadas. Mas desta vez parecia disposto a ir até o fim.
Não queria escrever mais um livrinho para intelectuais comentar em mesa de bar, desses que não vendem nada. Pensou em Hilda Hilst, a grande escritora brasileira, que chegou a fazer até livro pornográfico e não conseguira conquistar milhares de leitores. Agora vivia solitária em uma chácara em Campinas, com seus 60 cachorros. Seca, amarga, ela parou de escrever: Se Deus olhar para mim, me escondo.
O jovem escritor tinha um desafio: ficaria trancado no apartamento até produzir um best seller. Recheara a geladeira com bebidas, comprara dois pacotes de cigarros. É assim que fazem as feras, imaginava. Se sentisse fome, pediria comida chinesa pelo telefone. Faria qualquer sacrifício, mas iria até o fim!
Primeiro dia: Começou a escrever um romance sobre uma guerrilheira latino-americana, que conhece um industrial italiano, apaixona-se e acaba se tornando uma estrela de cinema em Hollywood. Tinha todos os ingredientes. Nem Sidney Sheldon acreditaria que ele, um escritorzinho dos cafundós do Judas, fora capaz de tal façanha. Poderia vender os direitos para uma minissérie de TV, talvez até para o cinema. Ficaria rico e famoso.
Segundo dia: Um besouro chocou-se com a vidraça. Uau! Era um toque do Além. Deletou tudo. Tinha finalmente a primeira frase da sua obra literária. Digitou: O besouro chocou-se com a vidraça. Se ao menos tivesse grana como o Jô Soares para pagar um exército de pesquisadores. Não, dinheiro faz mal. Jorge Amado conseguiu escrever algum bom livro depois que ficou rico? Estava realmente confuso.
Terceiro dia: Romances são muito complicados, concluiu. Depois da auto-ajuda, anjos, gestão empresarial etc, o que seria a nova onda? A Turma do Casseta & Planeta não estava ganhando dinheiro com piadas infames recicladas? Por que ele, um sujeito tão inteligente, não tinha uma idéia simples, que resultasse num livro de sucesso, mas que não exigisse muito esforço?
Quarto dia: Sonolento, intoxicado de fumaça, uma azia infernal, finalmente chegou a uma conclusão. Escreveria uma novela bem-humorada, despretensiosa, que retratasse o cotidiano nacional, a partir do nacionalíssimo título A Maravilhosa Bunda que Evitou o Gol e Salvou a Cerveja. Não é que tem tudo para ser o best seller da temporada?





