Quando o Paulo disse que iria se separar da Rosângela, o Renato levou o maior susto:
- Não é possível! Aconteceu alguma coisa séria?
- Incompatibilidade de gênios. Eu me acho genial, ela se acha genial e isso foi desgastando a relação ao longo dos anos. Estamos nos sufocando mutuamente, precisamos de mais espaço, entende? Além disso conheci uma estudante de psicologia...
- Sei, sei. E já falou com a Rosângela?
- Assim que a gente acabar de tomar esta cerveja, vou para casa e resolvo a questão de uma vez.
- Vai sobrar para mim - comentou o Renato, preocupado.
- O que você quer dizer com isso?
- Pô, Paulo, vou ter que mudar de emprego.
O Renato trabalhava com a Rosângela e, pior, a Rosângela era a chefe do seu departamento.
- Que é isso, cara, você e a Sandrinha são amigos da gente. Quer dizer, vão continuar sendo meus amigos e da Rosângela também, embora eu não tenha mais nada a ver com ela.
- Não é tão simples. Mulher abandonada passa imediatamente a odiar toda a espécie masculina. E vai querer se vingar dos homens. Daí para a histeria é um passo. Vou acabar pagando o pato nesta história, pode escrever.
Apesar dos apelos do amigo, o Paulo estava realmente decidido.
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A separação foi menos complicada do que ele imaginava. A Rosângela mostrou surpreendente frieza e discutiu a divisão dos bens com certa elegância. Ele ficaria com o apartamento atual, móveis inclusive. Ela, com o outro apartamento do casal, um pouco menor, e a casa na praia. Cada um tinha seu próprio carro. Claro, havia também o Bruno, filho único, 14 anos. Mas o garoto não causou problemas. Disse que preferia continuar morando com o pai porque era perto da escola, havia os amigos do prédio, o computador, não queria mudar, enfim.
Até mesmo a Claudete, há 12 anos atuando como ‘‘secretária da casa’’ (como eles faziam questão de se referir à eficiente empregada), que a princípio ficara visivelmente aborrecida com a notícia, acabou se contagiando pelo clima de tranquilidade da família diante da nova situação. Além disso, seo Paulo aumentou o salário dela em 10%.
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Seis meses depois, a Rosângela começou a infernizar a vidinha do Paulo. Ou, pelo menos, ele interpretou assim a sequência de atitudes da ex-mulher. Primeiro foram os telefonemas irritantes, sempre na linha fina entre a ironia e a ofensa. Depois ela começou a ‘‘fazer a cabeça’’ do Bruno. O menino acabou cedendo e foi morar com a mãe. Logo em seguida a Rosângela envolveu-se com o Renato, que deixou a Sandrinha e, talvez por constrangimento, afastou-se também do velho amigo.
O Paulo aguentou firme. Até aquela tarde em que chegou em casa e encontrou, colado na porta da geladeira, um bilhete com letras mal desenhadas.
- Aquela filha da mãe! - disse para si mesmo, espumando de raiva - Agora vai ter guerra! A Claudete não!
No bilhete, a ‘‘secretária’’ comunicava sua mudança de endereço. Dona Rosângela ofereceu o dobro do salário.

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