O francês Raymond Queneau ( 1903-1976), autor de ‘‘Zazie no Metrô’’ (Ed. Rocco, 1985), escreveu também um outro livro curioso, ‘‘Exercícios de Estilo’’ (Ed. Imago, 1995), no qual brinca com uma historieta banal, recontando-a de 99 maneiras diferentes. Num caso de descarada lipoinspiração, meti-me em empreitada semelhante, ‘‘psicografando’’ versões de alguns autores famosos para o seguinte fato:
Preocupado com dívidas, um homem vinha andando pela calçada de uma rua pouco movimentada. De repente, tropeçou em uma carteira de couro. Abaixou-se, pegou a carteira e descobriu que dentro dela havia um punhado de dólares. Olhou para todos os lados e percebeu, cerca de 20 metros à frente, uma senhora idosa que caminhava lentamente. Correu até a mulher e perguntou se ela não havia perdido nada. A velhinha pensou um pouco, bateu as mãos nos bolsos da blusa e disse: ‘‘Ih, meu dinheiro!’’
Henry James - Sabe-se muito bem que há poucos lugares no mundo com mais habitantes que as avenidas de Hyde Park numa bela tarde de junho. E essa era exatamente a opinião de Jackson Ashmore, filho de Sir John Ashmore, que viera de Londres quatro meses atrás justamente porque sentia-se entediado na Europa. O jovem não era propriamente um irresponsável, mas se entusiasmara com a noite americana e gastara muito além do que previa. Agora tinha algumas dívidas e temia que, caso solicitasse ao velho e austero pai a remessa de mais dinheiro, fosse receber críticas e colocar em jogo sua reputação de bom filho. Sem compreender muito bem a razão, ele havia se desviado para uma rua transversal e seguira em frente, observando as pessoas - aparentemente tranquilas - que se achavam instaladas diante das casas, à sombra de grandes árvores, a conversar sobre trivialidades.
Quando Jackson Ashmore tentou retornar, imaginou que encurtaria caminho tomando uma ruazinha praticamente sem movimento. Então ele tropeçou em um objeto acinzentado, aparentemente de couro e logo percebeu que se tratava de uma carteira feminina, na qual estava gravada uma espécie de brasão de família, e que lhe pareceu bastante avolumada. Entreabriu-a ligeiramente, apenas o suficiente para perceber que havia no interior da delicada peça uma quantia razoável em dólares. Ocorreu-lhe que a pessoa que deixara cair a carteira ainda pudesse estar por perto. Ao ver, a uma distância aproximada de 20 jardas, uma senhora idosa a caminhar vagarosamente, dirigiu-se até ela com o respeito e o tato que se exigiria de um cavalheiro. ‘‘Desculpe-me, minha senhora. Este objeto por acaso lhe pertence?’’ A mulher ajeitou os óculos de maneira que lhe pareceu um tanto arrogante, conferiu a carteira, guardou-a e agradeceu discretamente. Antes que o jovem Ashmore se afastasse, sinceramente satisfeito com seu gesto, ela perguntou:‘‘O senhor não é americano, estou certa?’’
Quentin Tarantino - O cara é um babaca desses que perambulam por Wall Street. Depois que se ferrou no pôquer, pediu uma grana emprestada a Marcelus Wallace. Não pagou e não tem como pagar. Mas sabe que se cruzar com o gângster, sua vida vai valer tanto quanto uma lata de sardinhas vazia. Lembra-se da ameaça de Marcelus: ‘‘Se o dinheiro não aparecer até o final da tarde, vou enfiar a 45 na sua boca e puxar o gatilho só para ver o seu cérebro de minhoca explodir e colar na parede’’. Apavorado, o sujeito sai andando a esmo. De repente tropeça em alguma coisa. ‘‘Que merda!’’ É uma carteira recheada de dólares (Close-up nas notas). Vê uma velhota a uns 20 passos. Pega a carteira sem sequer verificar os documentos e sai correndo atrás dela (a câmera acompanha). ‘‘E aí vovó, perdeu alguma coisa?’’ A velha usa óculos escuros e lenço colorido na cabeça. Ela enfia a mão na bolsa, tira uma pistola e mete dois balaços na cara do otário. Depois pega a carteira e cai fora.
Woody Allen - Nas minhas últimas três sessões de psicanálise, as coisas não andaram muito bem. Dra. Loraine, a minha terapeuta de estimação, parecia muito entediada. Isto me deixou ainda mais inseguro. Talvez a culpa fosse realmente minha, que não tinha nada de interessante para dizer, além da minha fixação por uma manequim de uma loja da Quinta Avenida. Sei que todas as manequins de louça parecem iguais, mas aquela tem um certo sex-appeal, entende? Felizmente ontem aconteceu algo inusitado que poderei narrar à doutora Loraine. Pela primeira vez na vida eu experimentei a sensação de chutar um punhado de dinheiro. Tropecei numa carteira recheada de dólares. Deus devia estar me testando, pensei. Ou aqueles dólares eram falsos e logo a polícia cairia em cima de mim. Como não quero problemas com nenhum dos dois, corri e enfiei a carteira na bolsa de uma velhinha pobre que estava parada na esquina. Ela se assustou e passou a berrar: ‘‘Ladrão! Ladrão!’’ Uma multidão começou a me perseguir. Na fuga, por sorte, entrei num cinema de arte que estava exibindo um filme indiano com som original e ninguém teve coragem de me seguir.

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