Entra no táxi, diz ao motorista o endereço do consultório médico.
- Abaixo ou acima da Souza Naves?
- Não sei exatamente. O número é esse, 480.
- Entre a Souza Naves e a Mato Grosso, com certeza.
- Ótimo.
Nem sabe porque usou a palavra. Não acha que ir ao médico seja grande programa para uma tarde ensolarada de quarta-feira. O estômago dói, queima. Em alguns momentos a dor parece mais forte no esôfago; em outros, no intestino. Provavelmente terá de se submeter a uma série de exames desagradáveis. O que há de ‘‘ótimo’’ nisso?
Depois de breve silêncio, o taxista pergunta:
- Consulta?
- É - diz, sem ânimo.
- Problema sério?
- Estômago.
- Isso é gastrite. Gastrite nervosa, essa vida agitada de hoje em dia. ‘‘Istréis’’, como se diz por aí, né?
- O senhor já teve?
- Eu? Eu não esquento a cabeça com nada. Tanto faz o rio correr pra baixo ou pra cima. Minha patroa é que vivia se queixando do estômago.
- Sarou?
- Chá de boldo! Um santo remédio.
---
Entra no consultório, diz à secretária o nome do médico e o horário da consulta.
- O senhor trouxe a guia?
- Precisava?
- A gente pode tentar a liberação com o plano de saúde por telefone.
- Se for possível...
- Qual o número da sua senha?
- Ih, é sete alguma coisa. Desculpa, posso pensar um pouco?
Coça a cabeça. A fogueira se alastra pela barriga.
- Vamos preenchendo a ficha enquanto isso.
Nome, idade, endereço, telefone. Nos intervalos tenta lembrar o número da maldita senha (Não, essa é do banco, essa é do cartão de crédito, essa é da internet...).
- Estado civil?
- Péssimo - tenta brincar. O senso de humor pode ajudar em situações embaraçosas. A moça não acha a menor graça.
- Casado ou solteiro?
- Separado.
- Desquitado ou divorciado?
- Cabe ‘‘separado judicialmente’’?
- Hum-hum. Católico ou evangélico?
- Só tem estas duas opções?
- Ateu?
- Acho que a melhor resposta seria ‘‘acredito em Deus’’, mas é muito PSDB,
né?
- Mas o senhor está mais para católico ou para evangélico?
Fica se imaginando entre o Edir Macedo e o Padre Marcelo, num programa de televisão. O auditório dividido, na maior torcida. Felizmente a secretária decide deixar a questão religiosa de lado. E, infelizmente, quer saber da senha. Sem o número, nada feito. Ele acaba desistindo.
- Dá para transferir a consulta para amanhã?
- Só vou ter vaga no dia 20.
- Tudo bem, então.
---
Entra na primeira farmácia que encontra no caminho.
- Posso ser útil em alguma coisa? - pergunta o rapaz de avental branco.
Ele pensa um pouco, olha as prateleiras.
- Tem chá de boldo?



TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
•Às vezes somos surpreendidos por pérolas como a revista ‘‘Caracol-Viola’’ (Nº zero, edição independente, 72 páginas), destinada à publicação de poemas, ficção, diálogos, resenhas e ensaios. Com requintado projeto gráfico de Rita Bredariolli, ‘‘Caracol-Viola’’ traz no primeiro número feras como Manoel de Barros, Moacir Scliar, Hilda Hilst e o paranaense Wilson Bueno. Mas há muito mais.
•À frente do projeto, Douglas Diegues, Antonio Maria Rosa e Walther Castelli, além da própria Rita. Cada exemplar custa R$ 5,00 (mais taxa de reembolso postal) e a ‘‘Caracol-Viola’’ pode ser solicitada através de dois endereços: Rua Marechal Rondon, 76 - Jardim Chapadão - CEP 13066-000 - Campinas, SP. Fone: (019) 242-4008. E-mail: [email protected]. Ou Rua Baltazar Saldanha, 610/27 - CEP 79900-000 - Ponta Porã, MS. Fone: (064) 431-2112. E-mail: [email protected].
•Citei Hilda Hilst acima e me lembrei de dar um toque a respeito do poético perfil da escritora traçado por Álvaro Alves de Faria (‘‘O Silêncio Estrondoso’’) na revista ‘‘Caros Amigos’’ de dezembro. Vale a pena ler.

mockup