Nelson Capucho
Antevéspera de Natal, em um dos corredores da grande loja de departamentos, o casal vai se espremendo, desviando dos consumidores mais apressados. Combinaram que este ano comprariam tudo com antecedência. Não conseguiram. Ninguém consegue.
- Não é o Sócrates? - O marido pergunta à mulher.
- Hem?
Repete a pergunta, num tom mais alto, e indica com os olhos a direção onde avistou o conhecido. O barulho é infernal. O Sócrates vem se aproximando, empurra o carrinho lotado. Logo atrás, dois filhos emburrados e a mulher vermelha de raiva:
- Estou falando grego com vocês? Já disse que não e pronto!
O maior pergunta à mãe o que que é grego?, o menor começa a choramingar. Sócrates coça a cabeça. Suspira. Então encontra o casal de amigos:
- Hi, Horácio, vocês também estão nessa fria?
- Como vai?
- Tudo bem, quer dizer, poderia estar melhor se o ar condicionado estivesse funcionando.
- Hem?
- O ar...horrível.
- Ah, muita gente respirando.
- É, as pessoas deveriam respirar menos, um grupo de cada vez, sei lá.
As mulheres tentam se cumprimentar, trocar beijinhos. Passam três crianças correndo, trombam com elas, uma menina quase se esborracha contra a prateleira.
- É o que eu sempre digo - comenta a mulher do Horácio -, crianças que não foram devidamente domesticadas viram adolescentes mal adestrados e acabam se tornando adultos completamente chucros.
- Nem me fale. Os meus são uns capetas!
- Graças a Deus o meu está criado e encaminhado.
- Mulher de sorte. Nada como ter filho cedo, quando a gente ainda tem paciência. E o Horacinho? Deve estar homem feito.
- Aquele vai ser um grande advogado. Acabou de se formar em Direito e já está processando a faculdade.
- O tempo passa...
- Pois é. Esse ano voou, menina. Acho que é por causa da crise, todo mundo correndo atrás do dinheiro, né?
- E o dinheiro correndo mais que todo mundo.
Horácio olha, indiscreto, para o abarrotado carrinho do amigo:
- Você caprichou nas bebidas. Pelo jeito, continua com o velho pique.
- Que nada, ando praticando a abstinência!
- Parou?
- Calma, sem radicalismo. Você sabe que eu sou da ala moderada do partido.
- Ah, bom.
Uma mulher gorda acompanhada de um homem gordo, ambos carregando caixas de brinquedos, irritados, reclamam dessa gente espaçosa. Os amigos desconfiam que estão atrapalhando o tráfego no corredor. Despedem-se.
Sócrates percebe que um dos meninos desapareceu.
- Só me faltava essa!
- Deve estar vendo o computador que ele não vai ganhar. Vamos voltar.
- Tchau, gente.
- Tchau, tchau.
- Boas festas!
- Para vocês também. Tudo de bom.
Horácio e a mulher prosseguem rumo à fila imensa no caixa. Transpiram.
Do sistema de som vem a voz enjoada da Simone: Então é Natal...





