De que matéria são feitos os sonhos? Que impulso nos move obstinadamente em direção a um objetivo, como um pássaro trancado numa sala de vidro choca-se até sangrar contra a inexplicável barreira que o separa da natureza? O que leva uma pessoa a dizer não, a questionar, a discordar, ainda que isto lhe custe o emprego, o conforto, a liberdade e, às vezes, até mesmo a vida?
Eram estes os pensamentos que rodopiavam no seu cérebro quando ele atravessou a avenida, os passos lentos, como se arrastasse no meio da noite um peso muito maior que o do seu corpo franzino. Caminhava olhando para o chão, para as listas da faixa de segurança. Agora ia pensando nas personagens que ardem todos os dias nas fogueiras das inquisições, nas vítimas de todas as injustiças. O sinal para pedestres saltou do verde para o vermelho e os motoristas afoitos aceleraram seus carros de um jeito ameaçador. Nem reparou.
Certos homens têm, em situações limite, uma postura que muito se parece com coragem, mas, no fundo, é algo mais complicado. O espírito aparentemente inabalável, mais que um desafio deliberado, pode guardar apenas um juvenil distanciamento do perigo. Às vezes ações e reações se encadeiam numa sequência vertiginosa que nem nos damos conta. Provavelmente foi assim que aconteceu com ele. Ou, quem sabe, apenas obedecera a um instinto mais forte que os outros, a determinar que teria de agir daquela maneira. Talvez, ainda, fosse do tipo racional e soubesse o tempo todo o que estava fazendo. Enfim, o importante é que fizera o que precisava ser feito. Agora enfrentaria as consequências. ‘‘O próprio Cristo não morreu crucificado?’’, disse para si mesmo, esquecendo-se momentaneamente de que estava falando com um ateu.
Respirou fundo, olhou até onde a vista alcançava. Já não exergava como um menino, mas recusava-se a ir a um oculista. Havia uma longa fileira de postes iluminados, as árvores em sua incansável tarefa de transformar monóxido de carbono em oxigênio, os prédios (quase todos com aquelas incontáveis luzinhas nas sacadas), os enfeites de Natal, os faróis dos carros, até um ponto de declive em que a escuridão parecia engolir a cidade. ‘‘O mundo é redondo... com certeza o mundo é redondo’’, pensou, acenando ligeiramente com a cabeça, enquanto decidia se iria tomar rumo leste ou oeste. Era uma escolha desimportante. Para qualquer lado que seguisse, teria de recomeçar tudo em algum lugar.

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