Nelson Capucho
No meio do sonho, ouviu vozes de crianças. Depois sentiu coceira na orelha esquerda e um peso no estômago, simultaneamente. Semi-acordado, sem saber onde terminava o universo onírico e começava a realidade, chacoalhou a cabeça, tentando livrar a orelha do incômodo. Surpreendeu um dos filhos com uma pena cor-de-rosa na mão. Provavelmente havia arrancado da velha peteca. Enquanto isso, o menor cavalgava sobre a sua barriga:
- Acorda, pai! A mãe disse que já está na hora!
Teve vontade de dar uma bifa em cada pestinha, mas, bom pai, se conteve.
Lembrou-se de Herodes, do Menino Jesus e, claro, da penitência que o sábado, especialmente aquele sábado, lhe reservava. Era o dia de ir às compras de Natal!
No café da manhã, enquanto os moleques executavam uma coreografia indígena ao redor da mesa, cantarolando uma versão escatológica de Jingle Bell, a mulher colocou diante dele uma folha de caderno.
- Amor fiz o que pude. Esta é a lista definitiva - ela disse.
Bastou correr os olhos sobre a relação de nomes para estrilar:
- O quê? Presente pra tia Onória e pro tio Totó? Ah, não! Pode rever a sua lista definitiva.
Ela provavelmente nem se zangaria com a atitude dele, levando em conta que o mau-humor matinal é um problema que estatisticamente afeta 80% dos maridos na faixa acima de 30 anos, caso não tivesse atentado para a entonação que ele deu à palavra sua.
- Peraí, minha lista não! Nossa lista. Só me encarreguei de anotar os nomes porque o senhor disse que não tinha paciência para isso.
- Mas desde o início eu deixei bem claro para a senhora que neste Natal só iria ter presente para os casos de urgência urgentíssima.
O prenúncio de desentendimento do casal era sempre o mesmo: começavam a se tratar de senhor e senhora, mais ou menos como fazem os parlamentares com o vossa excelência.
Como a música de um disco de vinil que perde a rotação no prato, a cantiga das crianças foi se diluindo. Afastaram-se os meninos, tristinhos, entre angustiados e culpados de nem sabiam o quê.
Será que os pais estragariam tudo outra vez?
O marido já falava alto, a mulher ironizava. Até que ele se ergueu dizendo que todo Natal era esse inferno e ela argumentou que os parentes dele eram maioria na lista e ele falou que não achava dinheiro na rua e ela mandou ele ir se queixar com o Fernando Henrique porque mais economia do que andava fazendo só se andasse pelada. Ele examinou o corpo da mulher com um olhar de desprezo, do qual iria se arrepender nas noites seguintes.
Depois houve o silêncio de pedra, o constrangimento por estragar o prazer das crianças e, finalmente, o tratado de paz: iriam ao shopping, sim, mas para a tia Onória e o tio Totó comprariam só umas coisinhas na loja de 1,99.
TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
Fique ligado: Bernardo Pellegrini e o Bando do Cão Sem Dono fazem show em Londrina, no próximo dia 20 para lançamento do CD Quero Seu Endereço (Gravadora Dabliú/Eldorado). Bernardo pretende trazer, entre outros convidados especiais, o guitarrista Rubens Nardo e o baixista Beto Nardo, que tocaram com Rita Lee no Tutti-Frutti.
Pinduka contra-ataca. O poeta e jornalista Ademir Assunção (Ex-Folha) lança na próxima terça-feira em São Paulo o livro-arte Cinemitologias. São apenas 100 exemplares, numerados e assinados pelo autor. Projeto gráfico de Joca Reinners Terron, com base em desenhos de índios brasileiros e norte-americanos. Joca, também poeta, estará lançando na mesma noite o seu primeiro livro, Eletroencéfalodrama. Evento marca o surgimento da Editora Ciência do Acidente (SP). No Espaço Publisher Brasil, em Pinheiros, a partir das 20h30.
No mínimo curiosa a manchete do jornal francês Liberation, a respeito da decisão da justiça inglesa de abrir processo de extradição contra Pinochet: Tiranos, tremei!. O ex-mandão chileno, ou o que ainda resta dele, poderá ser transferido para a Espanha, onde deverá ser julgado por poucos dos incontáveis crimes que cometeu durante uma das mais sanguinárias ditaduras na América Latina. Ícone dos países imperialistas durante período sombrio no imenso e eternamente explorado território abaixo do Equador, o decrépito general vê-se agora desprezado por ex-aliados. Talvez receba punição, talvez morra antes do julgamento. Se não tiver nada melhor para fazer, rezarei por sua alma.





