Vasculho, sem interesse específico, o sebo da Lido. Lá estão coleções primorosas, bem encadernadas, que algum amante da leitura tratou com carinho durante anos e sabe-se lá por que razão - provavelmente há uma história humana interessante por trás disso - acabaram na estante de usados de uma livraria. A quem interessar possa. Há também edições antigas de Eça de Queirós, um mestre, bem ali, tão perto da obra de escritores bissextos desconhecidos. Alguns, merecidamente desconhecidos, é verdade.
A arqueologia livresca possibilita descobertas curiosas, prato cheio para adeptos do voyerismo: anotações apócrifas, dedicatórias desprezadas, grifos intrigantes e até recortes de jornais amarelados, cartas e cartões pessoais esquecidos no interior dos volumes. Quem anotou, quem grifou, quem guardou? Quem era a Adalgisa que mereceu aquele mimo do Gildo em 1959?
Mas a melhor parte desta aventura - como, aliás, de qualquer outra - são as surpresas. No meu caso, o encontro com livros esquisitos. A gente pode encontrar, por exemplo, ‘‘O Puxa-Saquismo ao Alcance de Todos - Cartilha da Puxação Sem Mestre’’, da Editôra (assim mesmo, com circunflexo) Letras e Artes, 1963 (3.a Edição). Impresso nos Estados Unidos do Brasil, antiga razão social do País, antes de adotarmos o pomposo República Federativa do Brasil (Pensando bem, talvez a gente devesse ter mantido a identificação da matriz na fachada).
O autor deste instigante manual, Nestor de Holanda, pernambucano de Olinda, escreveu também ‘‘livros sérios’’ como os romances ‘‘Sossego, Rua da Revolução’’ e ‘‘Jangadeiros’’, que recebeu elogios de Jorge Amado. Jornalista, cronista, teatrólogo, poeta...e dinamitador verbal, acrescento eu, depois de me divertir com as letras do meu achado. É veneno para todo lado. Um dos alvos preferidos do Nestor é o político Carlos Lacerda. Mas há muitos outros, de personagens bíblicos a figuras da história do Brasil. Ele não poupa sequer o reino animal e quem paga o pato é o cachorro.
Após apresentar breve análise etimológica e os antecedentes da expressão ‘‘puxa-saquismo’’ (já foi ‘‘engrossamento’’; depois, ‘‘chaleirismo’’ ou ‘‘chaleiramento’’), Nestor lembra que puxa-saco, na verdade, não tem nada de chulo (pág. 12). ‘‘A expressão vem dos tempos em que era moda o casaco folgado, solto, não cintado, conhecido como paletó-saco. Os homens importantes adotaram a moda. Seus bajuladores viviam atrás deles, como a puxar a ponta do paletó. Daí...’
Palavras do Nestor velho de guerra: ‘‘Claro que em qualquer regime, aquém ou além da chamada ‘Cortina de Ferro’, funcionam os puxa-sacos. As estruturações sócio-políticas mudam os sistemas; não mudam, porém, tão radicalmente, o homem, a ponto de conseguir evitar que ele pegue na chaleira. Já foi dito, e sempre é bom repetir, que o puxa-saquismo é instituição universal, das mais poderosas’’ (pág. 47). Na opinião dele, entretanto, a situação é mais grave nos países em desenvolvimento (hoje, emergentes). E para não deixar barato, o escritor pernambucano dá logo nomes aos bois (pág. 58): ‘‘amarais netos, aliomares baleeiros, sandras cavalcantis, armandos falcões, juracis magalhães, robertos marinhos, plínios salgados, alvaros vales, arnons de melos, filintos mulleres, mens de sás, samis jorges, flávios cavalcantis, eugênios gundins, uma sucata imensa’’.
Como a lista era extensa, tomei a liberdade de suprimir alguns nomes menos conhecidos. Mas que ninguém interprete isso como chaleiramento ou puxa-saquismo!

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