Nelson Capucho
Jean aconteceu numa sexta-feira.
Quando o Muniz abriu a porta, atendendo a um toque da campainha, levou o maior susto. Ficou olhando para aquele sujeito com a impressão de que olhava para si mesmo. Não tinha irmão gêmeo (a menos que não soubesse) nem encomendara espelho em alguma vidraçaria.
- E aí cara, tudo em cima? - disse o outro ele, com sotaque indecifrável.
Pirei, fiquei louco, louquinho da silva, pensou o Muniz. O seu duplo sorriu, espiando o interior da casa, como se aguardasse convite para entrar. Só poderia ser brincadeira, o outro obviamente estava usando uma máscara, maquiagem especial, aquilo certamente tinha uma explicação lógica.
Convidou-o para entrar. Ficaram sentados na sala, frente a frente. O visitante quebrou o gelo:
- Você deve estar achando esquisito um desconhecido ir chegando assim, sem telefonar nem nada.
- Tenho a impressão de que o conheço há um bom tempo - disse o Muniz, com ironia..
Agora era o outro que parecia espantado:
- Como assim? Cheguei ao seu planeta anteontem...
Mas claro! Não havia pensado nisso: um ET, um ser de outro mundo, talvez de outra dimensão, quem sabe a sua própria energia vital que se materializara novamente e...sentiu um calafrio. Neste caso, ele já estaria morto. Estas coisas acontecem.
- Vim de Ragah, oitavo planeta do sistema de Hodiran, na galáxia de Sinodah.
- Ah, isto esclarece quase tudo. Por acaso em Ragah todos os homens têm este belo biotipo e esta fisionomia simpática?
O outro riu, balançando a cabeça:
- Não, não. A gente tem um senso de estética muito diferente, mas podemos nos adaptar facilmente aqui, assumindo a forma de terráqueos.
- Pô, mas logo eu? Por que não assume logo a forma do Tom Cruise, do Leonardo DiCaprio, sei lá...
- Precisávamos de tipo comum, alguém que pudesse andar por aí sem chamar a atenção. Eu escolhi você. Espero que não fique magoado. Somos um povo evoluído, com uma missão pacífica aqui na Terra...
- Tudo bem, já ouvi este papo no cinema, a TV repete o filme de vez em quando...só me faltava mesmo o show ao vivo.
O outro moveu as sobrancelhas (Ladrãozinho sem vergonha, pensou o Muniz. É o meu jeito especial de mover a sobrancelhas, custou-me horas diante do espelho na adolescência) e estendeu a mão:
- Podemos ser amigos?
O Muniz começou a se simpatizar com o ET. Como o nome dele era impronunciável em português, resolveu batizá-lo de Jean. Combinaram de sair, tomar um chope, mas com uma condição: Jean teria de assumir a forma de algum outro sujeito. No início tudo correu bem, até que o estranho visitante decidiu explorar a cidade por conta própria. No dia seguinte, o Muniz viu a foto do ET na página policial do jornal: Tonhão Boca-Quente nega crime e diz que se chama Jean. Fugir da cadeia não foi difícil.
Transformou-se numa assistente social e saiu tranquilamente pela porta da frente.
Os problemas começaram a aumentar. Sempre que se via em uma enrascada, o Jean assumia a forma do Muniz e voltava para casa. Estava passando da conta.
- Chega! Você tem que ser você mesmo. Ninguém pode viver sem conexão com o seu interior, compreende? Se as pessoas se aceitarem como são, fica mais fácil para os outros aceitá-las também.
Jean entendeu tudo e, como num conto de fadas às avessas, transformou-se no que realmente era: um horroroso ser de Ragah. Situação complicada, aquela. Mas o Muniz encontrou uma solução. Agora, um dia ele é ele mesmo e no outro, Jean assume a sua forma. Quando o ET sai de casa e faz tudo que ele deveria estar fazendo - trabalhar no escritório, inclusive - Muniz fica lendo, assistindo a TV, ouvindo música. Os amigos mais próximos também simpatizaram com o Jean e de vez em quando se divertem com aquela brincadeira de imitar figuras conhecidas.
O Sarney! - pede um, que se esfarela de rir diante da metamorfose. Agora, a Carla Perez!
TOKS. TOKS. TOKS. TOKS
Neuza Pinheiro e Wagner Nogueira apresentam-se hoje, a partir das 21h30, na Sala José Antonio Teodoro (Praça 1º de Maio, 110) na abertura da 13ª Mostra Afro-Brasileira Palmares de Londrina. Show tem ainda os convidados Gegê Alves, Luciano Galbiati, Alex Sanches e Luis Marcelo.
A Origem do Samba e da Bossa Nova é o tema da palestra ilustrada que será apresentada pelo Grupo do Curso de Licenciatura em Música da Universidade Estadual de Londrina hoje, a partir das 20h30, no Teatro Zaqueu de Melo. Promoção do Projeto Audioteca Municipal. Entrada franca.
A Casa da Aids de São Paulo, administrada pela Fundação Zerbini, coloca à disposição da população fita de vídeo de 18 minutos e meio sobre a prevenção do HIV e doenças sexualmente transmissíveis. Preço: R$ 15,00.
Escolas e entidades sem fins lucrativos podem solicitar a fita
gratuitamente. Endereço: Rua Frei caneca, 557 - Cerqueira César - São
Paulo. Telefone: 011-3120-5290.
Agradeço convite da Academia Paranaense de Letras para a posse dos novos acadêmicos, os jornalistas Luiz Geraldo Mazza e Francisco Cunha Pereira Filho. Dia 17 próximo, em Curitiba.





