A vida estava monótona, sem brilho. A Sueli tinha de fazer alguma coisa. Começou, obviamente, pelos cabelos: cortou, pintou de uma cor que ficava entre o prego enferrujado e a camisa do Juventus. Estranhou, a princípio. Brigou com o cabeleireiro. Dois dias depois, acabou gostando. Mesmo porque foi quando Augusto, o maridão, percebeu a novidade:
- O que aconteceu?
- Como assim?
- Você é a nova Spice Girl?
Não chegava a ser um elogio, mas, vá lá, pelo menos havia sido notada. Depois, orientada pela filha adolescente, renovou o guarda-roupas. Ainda recorreu à aeróbica, tai-chi-chuan, psicanálise, florais de Bach até concluir que precisava realmente era mudar de marido.
A separação judicial foi amigável, se é que isto existe.
O Augusto iria se arrepender daqueles anos de desprezo e frieza, certamente motivados por ‘‘um caso’’ do qual ela nunca conseguira provas. Precisava sair mais de casa, frequentar bares, retomar as amizades. Afinal, tinha só 35 anos e, celulite à parte, um corpinho que não era lá de se jogar fora.
Foi numa festa, em petit comitê, na casa de uma amiga que aconteceu o encontro inusitado. Conheceu uma garota chamada Sharon, que revelou estar interessada em um homem assim, assim...
- Como ele se chama?
- Guto, quer dizer, Augusto.
- Não é possível.
- Você o conhece?
- Fui casada com este...sujeito...durante 11 anos.
- Poxa, desculpa. Eu não...
- Não se preocupe. A melhor coisa que me aconteceu na vida foi cair fora daquele casamento. Aliás, nunca tive vocação para veterinária: de manhã, o cachorro acordava rosnando, à noite sumia feito um gato vira-latas e quando voltava de madrugada dormia e babava feito um porco.
Desfeita a ‘‘saia justa’’, as duas acabaram se entendendo. Mais que isso, Sharon era uma pessoa muito agradável e a Sueli simpatizou com ela. Ou fingiu, vai saber.
Passaram-se alguns dias e a Sharon telefonou para a Sueli.
- Amiga, estou precisando da sua ajuda.
- O que aconteceu?
- Não, nada. É que o Guto vai fazer aniversário...
- Ah, é verdade, ele é escorpião...nem me lembrava mais.
- Pois não tenho a menor idéia do que ele gostaria de ganhar. Como você o conhece melhor, não sei se seria abusar muito lhe pedir uma sugestão.
- Que é isso, querida. Com o maior prazer. O Augusto gosta muito de caça, pesca, essas coisas...
- Nossa! Ele nunca mencionou isto.
Quando a outra desligou, Sueli sorriu, sádica. Se havia algo que o Augusto odiava era mato, beira de rio, insetos. Domingo de manhã, tocou o telefone:
- Sueli? Bom dia.
- Oi Sharon, tudo bem, e você?
- Menina, queria lhe agradecer pela dica. O Guto adorou o presente. A gente vai sair daqui a pouco para estrear o equipamento de pesca. Você foi superlegal!
Sozinha e arrasada, Sueli senta e chora. Nem imagina que o Augusto se lixou para o presente e que a falsona da Sharon acaba de lhe contar uma mentira deslavada.

TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
• O Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis, 16 anos de estrada, está de volta a Londrina depois de temporadas em São Paulo e Curitiba, para uma mostra de peças de Mário Bortolotto. Hoje tem ‘‘Postcards de Atacama’’; amanhã, ‘‘Diário das Crianças do Velho Quarteirão’’ e, domingo, ‘‘Será que a Gente Influencia o Caetano?’’, no Núcleo 1 (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243), às 21 horas.
• Nos dias 26 e 27, no Teatro Zaqueu de Melo (ao lado da Biblioteca Municipal), o Cemitério de Automóveis apresenta ‘‘Rolex, o Anti Velox’’. A mostra tem produção de Christine Vianna e apoio da ‘‘Folha’’.
• Vale a pena ver a exposição da artista plástica Dolores Branco no Restaurante Vila Fontana (Av. Higienópolis, 483), em Londrina. São sete gravuras e uma tela. Até o dia 2 de dezembro.
• O médico e escritor londrinense José Eduardo Siqueira acaba de lançar o livro ‘‘Ética e Tecnociência’’ (Ed. Universidade Estadual de Londrina).

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